A Palavra do Presidente
126.º Aniversário e homenagem a Nelson Évora
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Na sessão solene do 126.º Aniversário, realizámos uma homenagem justa e emocionante ao atleta, ao homem exemplar, ao cidadão íntegro que é Nelson Évora.
Atravessamos hoje, em Portugal, uma nova “idade da pedra” e de retrocesso no que toca ao apoio e ao incentivo livre e criador ao Desporto. Na minha infância e juventude, numa vila transmontana, para além dos que jogavam futebol (e todos gostávamos de o praticar em tardes inteiras, com balizas que eram feitas de pedras e bolas de meias velhas e trapos), havia três jovens, apenas três, que faziam atletismo, de manhã cedo, antes de pegarem ao trabalho.
Corriam pelas ruas da vila e por caminhos velhos, entre quintas e pinhais, cinco quilómetros diários, e eram os “maluquinhos das corridas”, como lhes chamavam os senhores e as senhoras bem-pensantes da vila.
Um deles, ficou em 3º lugar numa prova regional, em Bragança, não teve qualquer incentivo e apoio e ainda hoje é emigrante e operário na Alemanha.
Nelson Évora personifica o ideal do homem lutador, contra ventos e marés, assumindo o seu papel de descobridor de outros mundos de afirmação humana. Sabemos um pouco da sua história familiar e profissional e aqui o homenageámos exactamente porque é o contrário daqueles que contribuem para a alienação do homem e da mulher. O o seu exemplo enobrece-nos a todos, e foi gratificante ver como os nossos alunos festejaram com ele o aniversário desta casa, cantaram os parabéns à Voz do Operário e se emocionaram por estarem com um homem que ganhou a medalha de ouro nos jogos olímpicos em Pequim, é campeão olímpico do triplo salto e todos os dias dá exemplos de luta e de afirmação dos nobres ideais que fazem crescer os homens e as mulheres conscientes e dignos de pertencerem a um país e a um povo que sofre e que luta pela liberdade, pela afirmação profissional e pessoal, pelo trabalho e pelo futuro feliz que todos merecemos.
A Voz do Operário encerrou, nesta sessão solene, as comemorações do seu 125º Aniversário e abriu o programa de actividades para festejarmos o 126ª Aniversário. Casa de trabalhadores e para servir os trabalhadores, as crianças, os jovens e os mais idosos, temos 430 alunos, desde a creche ao 3º ciclo, 28 idosos e acamados, apoiados em suas casas, e desenvolvemos actividades que elevam e dignificam os que querem afirmar-se na vida e serem livres na conquista de direitos, com o sentido das responsabilidades inerentes a quem não perde perspectivas e não se deixa empobrecer culturalmente, a quem resiste e se junta aos que enfrentam as dificuldades com inteligência e determinação.
Em 2008, homenageámos a Fundação Gulbenkiam, que apoiou a criação de um pavilhão da Voz que tem o seu nome. Realizámos actividades sociais, culturais, desportivas e associativas de qualidade; lançámos uma campanha de solidariedade que atingiu 434 000 euros; lutámos contra o Ministério da Educação, que desde 2002/2003 não cumpria as suas obrigações face aos nossos alunos e às famílias com mais dificuldades; desde esse ano lectivo de 2002/2003 até 2008, foi a Voz do Operário que assumiu a sua parte e a parte do Ministério da Educação nas mensalidades, continuando as famílias a pagarem apenas a parte que lhes competia, o que agravou a situação financeira e já estrutural desta casa.
Finalmente, em Julho de 2008, o Ministério da Educação assinou os contratos em atraso e reatámos uma relação que continua difícil e a merecer a nossa firmeza e intervenção adequadaa.
A culminar as comemorações do 125º Aniversário, em 29 de Novembro de 2008, participámos activamente e realizámos um espectáculo notável de Carlos do Carmo, Fado Maestro, no Pavilhão Atlântico, festejando os seus 45 anos de carreira e o nosso aniversário. Carlos do Carmo, grande artista e homem íntegro e solidário, deu como prenda à Voz do Operário, 160 000 euros de receita deste espectáculo memorável.
Ele não pôde estar presente na sessão solene do 126º Aniversário, mas disse-nos que, estando no estrangeiro, estaria connosco, a homenagear Nelson Évora e a abraçar todos os presentes, na solidariedade enorme que o caracteriza e enobrece.
Hoje, a Voz do Operário pode respirar melhor e abalançar-se a projectos e desafios. Assim, temos aprovado um projecto de ampliação da creche em mais 70 lugares, temos outro projecto em análise, para ampliação do pré-escolar, fizeram-se obras no salão de festas, com o apoio de grandes amigos, outras obras necessárias decorrem e irão decorrer e está finalmente em montagem o elevador para esse salão histórico que vai modernizar-se e será local de espectáculos, de encontro e de festa para Lisboa e para a área metropolitana.
Estamos a preparar as festas de Lisboa e a marcha infantil de a Voz do Operário. Queremos fazer um apelo ao voluntariado experiente e amigo que todos os anos tem marcado positivamente a nossa vida e a nossa festa colectiva e a todos os trabalhadores, associados e amigos que quiserem a realizar as actividades.
O arraial da Voz, no ano passado, ficou em 1º lugar, na classificação do Júri Municipal. A marcha infantil esteve no Pavilhão Atlântico, na Avenida da Liberdade e nas ruas de Lisboa, a afirmar a nossa vontade e a nossa alegria de participar e de viver. Temos de juntar esforços na procura da dignidade humana e da afirmação colectiva de dirigentes, associados, trabalhadores, crianças e jovens alunos, amigos e amigas desta casa que deve ser sempre honrada e dignificada como ela merece.
O tema da marcha será os 130 anos do jornal A Voz do Operário. Aí reafirmaremos, se tudo correr como deve correr, a vontade indomável dos operários dos tabacos que no século XIX, há 130 anos, criaram primeiro o jornal, para fazerem ouvir as suas propostas e direitos, e depois, quatro anos mais tarde, criaram a Sociedade a Voz do Operário.
A dignidade, a honradez, a capacidade de lutar contra o analfabetismo, a miséria e a exploração, foram e são exemplos e mensagens e actuais que esses homens e mulheres nos deixaram. Num mundo e num país fortemente atingidos pelos que jogaram nos casinos bancários e financeiros com o dinheiro de todos nós, voltamos ao principio das lutas e temos de enfrentar as dificuldades, impondo que paguem a crise que o governo do PS já tinha criado, e as crises mundiais, aqueles que as provocaram para especular e enriquecer e não quem trabalha e quem já é sacrificado no desemprego e no dia-a-dia difícil que atravessamos.
Saímos mais fortes quando lutamos juntos para enfrentar as vicissitudes e realizar os projectos que estão aí, à nossa frente. Não voltaremos a cara às dificuldades. Iremos em frente, seguindo o exemplo de Nelson Évora, de Carlos do Carmo e de todos aqueles que põem o nosso país e a humanidade em primeiro lugar, quando praticam desporto, quando cantam as dores e as alegrias da vida e quando trabalham para se superarem, na dignidade, na força e na inteligência que libertam e afirmam cada homem, cada mulher e cada jovem, na luta de todos os dias e na elevação cultural e social que ambicionamos.
Em nome da Direcção, dos dirigentes, dos trabalhadores e dos associados da Voz do Operário, no dia 13 de Fevereiro,agradecemos a presença de todos na sessão solene e no jantar de confraternização.
O dia foi de festa, de convívio e de amizade, nesta cidade de Lisboa, na Voz do Operário, porque fez 126 anos e tem muito trabalho, muita gente nova a acreditar nesta casa; gente que é nova porque não se deixa alienar e envelhecer, e porque é nova mesmo e aqui estuda e convive, pensando nos outros, nos que sofrem, nos que trabalham, na imensa solidariedade humana que nesta casa aprendemos e que temos de continuar a exercer.
Viva a Voz do Operário.
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