Cultura
Um conto de Francisco Silva Dias
Terça, 03 Março 2009 10:29
Silva Dias, arquitecto, escreveu um livro de contos em que desfia memórias e ficciona histórias da cidade de Lisboa. Com a devida autorização aqui se transcreve um desses contos que ilustra Lisboa como cidade multicultural, não isenta, no entanto, de preconceitos.
Zona J
É chato. Quando vivemos nas barracas ou em casebres ou em casas degradadas, somos a malta das barracas e dizem que somos porcos, feios e maus, como no filme. Quando somos realojados nos Bairros da Câmara, somos os dos bairros sociais e o nome do sítio onde moramos cola-se a nós e continuamos a ser maus embora já não sejamos porcos porque agora tomamos mais vezes banho e não seremos feios porque andamos mais bem vestidos, temos armários para pôr a roupa e não dormimos com os fatos que trazemos de dia porque não temos tanto frio e usamos pijamas e o nosso olhar é menos carregado. Mas para os outros maus continuamos a ser.
Uma vizinha minha, ainda nova, balzaquiana, bonita e bem ataviada meteu-se num táxi e já instalada disse ao motorista o nome da rua para onde queria ir e acrescentou onde era, no bairro social onde vive.
Vira-se o homem e diz: se soubesse que era para aí não a tinha deixado entrar, dizia que estava em serviço, não a deixava entrar, pelo aspecto você bem me enganou, se soubesse não a tinha deixado entrar, dizia que estava em serviço.
Passou uma coisa pela cabeça da vizinha. Começa por dar uma palmada na careca do homem e arrependeu-se logo porque lhe ficou a mão toda engordurada. Vai e torna a ir e segura-lhe uma orelha que ameaça torcer. Vai e torna a ir, digo-lhe eu. E lá conseguiu ele libertar-se e arrancou.
Teve azar o homem com a cliente que lhe entrou no carro porque a vizinha Horácia é uma mulher de armas, dirigente nata e gosta muito do bairro e de toda a gente e toda a gente gosta muito dela.
Havia em frente da casa que ela habita um terreno vago. Quando vieram os primeiros habitantes para o bairro vieram também os velhos, chamados da terra, agora que já havia pelo menos um canto onde cabia uma cama nas casas novas e eles já não ficavam lá longe, sozinhos. Os velhos sentiam vontade de se entreter e de mexer na terra e foram amanhando o terreno, plantaram couves e cebolas e batatas, coisas resistentes, era difícil porque aquilo era mais entulho que terra mas depois os velhos foram indo e a Câmara começou a embirrar porque havia alguns que quebravam os esgotos para logo ali terem água e não haver necessidade de a ir buscar a casa e pagá-la cara.
Foram desistindo e o sítio ficou abandonado e feio.
Pois a vizinha Horácia, filha e sobrinha de arsenalistas que dizia que tinha casado não na Igreja nem no Governo Civil mas sim no Centro Republicano da Almirante Reis quando era nova e morava naquelas bandas, fez ver a todos que aquilo era uma vergonha e convenceu cada um a ocupar-se de um pedaço de terra em frente dos seus prédios. Assim foi feito e lá foram plantadas flores, ervas de cheiro, hortelã e salsa, orégãos e alecrim juntamente com couves e rabanetes e tudo o mais.
E aquilo está lindo de se ver, a Junta deu sementes e mangueiras e foi autorizada a ligação às bocas de rega e é a Câmara que fornece a água. Tudo isto ela conseguiu, depois de muitas horas a chagar todos, desde o presidente da Junta ao presidente da Câmara.
Diga-me uma coisa: em bairros finos alguém cuida dos jardins de todos? Só num bairro social.
Chega lá o táxi e pára em frente da casa da vizinha Horácia. O motorista vem calado, ainda lhe dói a palmada mas o maior queixume vem do orgulho ferido, sente que uma mulher o humilhou. Recebe o dinheiro, faz o troco sem se virar para trás, olha à volta e acaba por dizer: isto está bonito, o jardim... Está a ver, responde Horácia, e fomos nós que fizemos, com as nossas mãos, veja a gaiola dos pássaros, fomos nós que a fizemos, onde é que você mora? Tem lá disto? O homem olha, ainda, mais uma vez à volta e acaba por dizer: mas aqui há muitos pretos. Pois há, pois há, pretos de Angola, da Guiné, cabo-verdianos, paquistaneses e indianos, pois há. Há turmas na escola que têm mais miúdos morenos que brancos. Damo-nos todos bem, somo vizinhos, é claro que de vez em quando há zaragatas, cada qual tem os seus usos, as suas festas, mas até as partilhamos. Oiça lá, sabia que a nossa marcha ganhou o concurso, na Avenida, e havia marchantes e homens do cavalinho russos e pretos? Entendeu? Agora sou eu que pergunto, disse o homem voltando-se para trás: a senhora tem filhos? Ou melhor, tem filhas? E gostava que uma delas casasse com um preto, um preto, não digo um indiano porque esses têm dinheiro, lojas no centro da cidade, já os tenho visto em Mercedes. Oiça, oiça bem, tenho uma filha única que namora um preto e estou desejosa que se casem e me dêem netos. Preto? Ele é mesmo preto? Amarelo é que não é, respondeu a vizinha.
Quando há eleições e mesmo quando não há eleições vão à televisão umas senhoras, cabelo pintado, jóias, pernósticas e uns senhores bem falantes feitos parvos que dizem que não devem ser feitos bairros sociais, que são guetos e que é preciso espalhar, que não devem juntar-se os pobres todos no mesmo sítio. Como, se somos todos pobres neste país? Só eles é que são ricos e vivem em condomínios fechados, tristes e com guarda à porta. Queriam que nós continuássemos a viver nas barracas entre os ratos e a merda?
Partiu o homem do táxi, aparentemente sem rancor e a vizinha Horácia pensou, mais uma vez, que gostava de viver naquele bairro.
Não se arrependia de ter reduzido daquela maneira a história da filha e do preto. Na verdade teria gostado mais que ela se casasse com um rapaz da terra, filho de gente conhecida mas quisera ela fazer de menina da história da Bela e do Monstro, talvez para ganhar protagonismo entre as companheiras, porque ele, sendo atlético, não era bonito, era tímido e reservado e depois dos jogos de sedução, as galerias e os recantos do bairro, ela e o marido todo o dia fora nos empregos, eles a viverem paredes meias, a mulher é estopa, o homem é fogo e veio o diabo e assoprou.
Bem se tinha aprecebido a vizinha Horácia quando chegava ao fim do dia a casa, o olhar furtivo dela, o cansaço e uma contida alegria, mesmo o cheiro e a desarrumação disfarçada do quarto dela. Tinha sido assim, pois que assim fosse. Eles até gostavam um do outro.
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