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Jornal - Cultura

Domingos Lobo tem um novo livro, de contos, intitulado “Território Inimigo”, editado pelas Edições Cosmos. Ensaísta, poeta, romancista e dramaturgo, o escritor de “Os Navios Negreiros Não Sobem o Cuando” regressa à ficção com um conjunto de 15 contos revelando-se, segundo a crítica de Guilherme de Melo, “amargamente provocador”.
“A liberdade, a liberade livre baudelairiana e não a liberdade estereotipada, formal que a retórica institucionalizada nos impõe, só se alcança no respeito pelo «outro», com o «outro”, lê-se na nota do editor que prossegue: “Enquanto não conseguirmos enfrentar os nossos mais íntimos temores, os fantasmas ocultos que nos assolam em noites aziagas, não conseguiremos experimentar a plenitude, viveremos uma mentira, um preconceito, o esquivo refúgio face à dureza do real que habitamos”.
“O novo livro de Domingos Lobo, «Território Inimigo», coloca-nos nesse espaço-limite das nossas mais extensas perplexidades contemporâneas, no chão de lava de todas as transgressões para que nos possamos interrogar, ver ao espelho, sem temores, por forma a conseguirmos, sem sobressaltos, penetrar nesse outro território do humano que teimamos em ignorar”, define o editor, concluindo que o escritor “desbrava esse «oculto» território, numa linguagem ora cáustica, lírica por vezes, ora desassombrada e ductilíssima, por onde o irónico e o sarcástico atravessam os limites de uma fala com imperecível marca identitária”.
De entre os 15 contos de “Território Inimigo”, A Voz do Operário destaca um deles, “O Retrato”, revelando um pouco da escrita de Domingos Lobo. Eis um excerto.
“Abriu a secretária. Na gaveta, arrumada com meticulosidade feminina, estava o diário de pele de carneira puída, fechado a cadeado. Fizera-o no seminário, nos trabalhos manuais: o diário, a capa do missal, um terço cinzelado, em cedro, um álbum para fotografias. E lás estavam, amarelecidos mas conservados, os retratos: a primeira comunhão, o crisma; a mãe com ar impante, olhar vítreo de analfabeta, o pai de chapéu à banda, colarinhos enrolados sob um casaco que já conhecera dias festivos, as irmãs com fitas nos cabelos, rostos redondos, de lua. Ao centro do álbum lá estava a foto do seminário, tirada na fachada medieval. Foto do grupo inicial, ainda com resquícios de fuligam de lareira, rostos esquálidos de fome suspensa. Seminário, primeiro ano, escrevera na legenda. Reconhecia nela os que ficaram, poucos, e com ele continuariam nos difíceis caminhos de teologizar as crenças, de dobrar a alma até a esboroar de sentido, de sentidos; os que cedo partiram para outros rumos por escassas se lhes revelarem as convicções e a fé – filhos de um deus ausente. Nessa foto se retém, uma nostalgia amarga a vir-lhe à boca, azedo dos dias, coisa breve e passageira. Recorda os que se perderam pelos caminhos do mundo em tarefas aventurosas, os que permaneceram, como ele, resignados à sorte de tarefa ligeira, salto na escala social para quem estaria destinado a dobrar costados sobre terra infértil e do mundo conhecer apenas o quinhão de leira que lhe caberia revolver até ao fim dos dias, pão e sepultura juntos. Vestiram hábito, cumpriram sacramentos: sacerdotes de púlpito de aldeia a pregarem a resignação, a humildade e a obediência. Desses, com ele garbosamente ao centro, resta a foto comemorativa de vinte anos de sacerdócio: rapazes já a dobrarem a meia-idade, tempo de todos os perigos, de fazer balanços à vida, de preparos para outros voos na hierarquia da Igreja, Tempo, também, das tentações maiores, dos últimos frémitos do corpo, dos instintos a custo dominados, febres que lhe deixaram, ele o sabia, lanhos largos na pele, sangue que não estanca. Depois, dobrado esse istmo de espasmos, tudo parece apaziguar-se, volta uma paz de cinza à alma dissoluta, retorna a fé, ténue âncora, à custa de exorcismos e vergastadas na solidão do catre, aos ímpios corações que ousaram pensar, curto que fosse, desatar o animal que transportam enjaulado nos esconsos da carne. Ele que o diga. Se confessar puder, padre que nunca escondeu viris afectos, sedutor por instinto irreprimível, mais forte esses apelos dos sentidos do que a razão, se razão existe em assim castrar um homem apenas porque é pastor, pregador de ilusões e venturas num céu a haver em galáxia outra, que esta desbravada está, e sem asas brancas voltejando, ao que consta. A moral, imposta de cátedra, é indigna quando limita a natureza, a tolhe em seus lídimos alicerces. Por isso, deixou-se arrastar nos suplícios do desejo, em efémeras paixões, ocasionais desfalecimentos. Foram sempre mais fortes essas primitivas vontades que os pecaminosos temores. As paroquianas, e consta que alguns efebos dados a hóstias e benzeduras, não lamentavam os assédios, eram cúmplicas, morriam de ciúmes, archotes acesos no escuro da sacristia, queixando-se em lágrimas silvestres no confessionário, a ele, das suas próprias fraquezas: sacerdote e mártir, na carne impura dada a terreais luxúrias, amén.
(...) “Mas o retrato, o de cabeceira, estimado entre todos, com moldura de prata, era aquele em que se mostrava ao lado do Professor. Ambos frente às escadarias da reitoria da Universidade de Coimbra: ele, de capa e batina, o Professor, de toga e capelo, sorriso enigmático, olhar predador de lince beato, à espreita. Ambos soleníssimos, serenos; pose para a imortalidade. Foto histórica, diria, anos mais tarde, antes de se finar, já cardeal, de morte natural e deitada – e consta que sem remorsos”.