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postheadericon Romance inédito de Avelino Cunhal

Jornal - Cultura

Escrito há 74 anos, “Nenúfar no Charco” é o único romance escrito por Avelino Cunhal. A Edições Leitor recuperou o manuscrito e as ilustrações que o acompanham e decidiu editar o romance do advogado que também escreveu peças de teatro e contos e desenhou e pintou, sendo como que um percurssor do neo-realismo português. Uma obra que Domingos Lobo, a quem coube apresentá-la, descreve como “inesperada e intemporal”.

Avelino Cunhal era natural de Seia, onde nasceu em 1887. Na Universidade de Coimbra licenciou-se em Direito e na sua terra natal iniciou o exercício da advocacia, tendo mais tarde, rumado a Lisboa, onde como advogado, defendeu inúmeros antifascistas nos tristemente célebres “tribunais plenários” realizados na Boa Hora. Conferencista na Universidade Popular Portuguesa, Avelino Cunhal foi igualmente colaborador das revistas “Vértice” e “Seara Nova” e do jornal “O Diabo”, onde publicava sob o pseudónimo de Pedro Serôdio. Homem dotado de vasta cultura e amante das letras e das artes, o advogado foi também pintor e nessa qualidade participou várias vezes na Exposição Geral de Artes Plásticas. Avelino Cunhal faleceu em Lisboa, em 1966.

Mais conhecido como pintor que como escritor, Avelino Cunhal escreveu e ilustrou “Nenúfar no Charco”, entre 1934 e 1935, quando o neo-realismo ainda só se fazia adivinhar em Portugal. Diz por isso Domingos Lobo: “Não querendo excluir este romance – e único – de Avelino Cunhal dos primórdios inaugurais do nosso neo-realismo, o certo é que ele se afasta, nas suas coordenadas estético-filosóficas mais actuantes, do neo-realismo nascente, embora estejam impressivos nesta escrita a vibração política, a denúncia da miséria e da situação social, a crítica subtil, mordaz, aos dogmas do catolicismo, ao seminarismo retrógado e salazarento (de resto, uma crítica cara aos intelectuais republicanos), a visão dorida, mas de grande sagacidade, sobre um país que se encontrava à beira da mudança de ciclo. A voz de Avelino Cunhal é, nessa expositiva denúncia, sempre corajosa e assertiva. Esta posição desassombrada e consciente por parte do autor, de desafio, de afrontamento às normas censórias então definidas pelo fascismo nascente, que impunha um eufemístico exame prévio aos textos de ficção, estará certamente, na razão de este romance notável ter permanecido inédito até hoje”.

 

Ruptura com a herança oitocentista”

 

O romance, em termos temporais, situa-se entre os finais do século XIX e os últimos anos da monarquia e tem como acção a infância, adolescência e entrada na idade adulta de Olívio Oliva, personagem central. “Avelino Cunhal traça, através do olhar ingénuo e sonhador de Olívio, um retrato desapiedado, por vezes cruel, dos espaços redutores e lodosos onde a pequena burguesia de província se enreda . À maneira de Cesário, o autor permanece equidistante da abjecção que denuncia, captando o real, o seu lado sórdido, com um magoado olhar, o qual, no entanto, percorre esses lanhos quase sem um estremecimento. Só o ar, as plantas, o sossego que evolam a serra parecem estremecê-lo. O pequeno Olívio, alter-ego do autor, é poupado a este demolidor olhar, permanece sonhador, lírico, esquecido deste universo torpe”, realça Domingos Lobo.

Ao construir um personagem atromentado com a sua própria indefinição existencial (..) que a custo de uma aprendizagem dolorosa consigna a sua força moral e cívica, Cunhal recusa, por essa via, o humanismo burguês proudhoniano, percorrendo mais sólidos caminhos que tocam, em desassombro reflexivo, no plano social e ético, os parâmetros estruturais da criação literária neo-realista. (...) Não era ainda o neo-realismo ortónimo, mas era certamente um humanismo de novo tipo que Avelino Cunhal inaugurava com este livro, estabelecendo ao mesmo tempo a ruptura com a herança oitocentista e opondo-se claramente às derivas anti-sociais e conservadoras que o modernismo propunha”.

O romance é escrito nos alvores do fascismo português e isso não escapa ao autor. “João Franco é o único político nomeado por Avelino Cunhal (...), evocando o ditador como responsável pela morte do Pinguinhas no degredo de Timor. O enunciado não é puramente circunstancial, ele infere da necessidade sentida pelo autor de inscrever na narrativa, como um alerta, os objectivos sinais que o fascismo de Salazar exibia, servindo-se de um outro governante igualmente sinistro para denunciar o despotismo que, em 1934, era já amplamente percepcionável”.

À obra não são igualmente alheios os acontecimentos internacionais, nomeadamente os aspectos políticos como a crise social provocada pelo crash da Bolsa norte-americana, a queda da ditadura de Rivera em 1930 e a esperança que significou a República em Espanha.

 

Actual, urgente e necessário”

 

Na apreciação que faz do livro “Nenúfar no Charco”, Domingos Lobo escreve: “É da dignidade do humano, da sua intrínseca natureza, que este romance do autor de Senalonga [livro de contos de Avelino Cunhal], demoradamente nos fala. É contra a falta de solidariedade, contra a indiferença, contra o egoísmo e o salve-se-quem-puder, que esta escrita se ergue apelativa e corajosa. É, nestas derivativas principais, um romance actual, urgente e necessário”.

E acrescenta, o também escritor: “A publicação deste romance notável é um acontecimento editorial da maior relevância que aparece inesperado e em contra-ciclo. Face à triste realidade que é hoje o grosso da nossa produção editorial, que privilegia o mediático, o tontinho, o soporífero, e 'essa literatura desnacionalizada, francizante, de que se atulha a praça', de que falou Aquilino Ribeiro, este 'Nenúfar no Charco' será um livro estranho, bizarro, 'desafinado no coro da actual ficção portuguesa', e ainda bem”.

Este livro existe, resisitiu em silêncio longos 74 anos, mas está aqui, vivo, actuante, corajoso, intacto no seu grafismo, na sua ortografia original, tal como o autor nu-lo deixou, nas ilustrações a tinta da china que são outra e suplementar linguagem. Pronto para incomodar, tão actual hoje, nas premissas que infere, como em 1935 – pronto a enfrentar o mesmo bloqueio, os mesmos medos (embora a carapaça censória seja hoje mais cínica e hipócrita) – pronto a denunciar, a romper o cerco de esturpor que o gerou”.