Cultura
Espaço de criação e de liberdade
Segunda, 08 Março 2010 16:09
Primeiro foram os Bonecreiros, porém, por razões artísticas e estéticas alguns dos seus membros, entre os quais João Mota e Carlos Paulo, decidiram abandonar o projecto e lançar-se noutro. Nasceu assim, já lá vão 37 anos, a Comuna - Teatro de Pesquisa. No seu 1.º manifesto escreveu-se “o que está morto decompõe-se. O que está vivo transforma-se”. Fiel ao espírito que presidiu à sua fundação, a companhia de teatro tem vindo a adaptar-se às alterações da sociedade sempre com uma preocupação: a qualidade dos espectáculos e das iniciativas que promove.
Quando se pensa na Comuna, pensa-se em teatro. No entanto, no velho palacete à Praça de Espanha é possível conversar à frente de um café, apreciar uma exposição de artes plásticas, assistir a um espectáculo musical ou escutar poesia, às quintas-feiras à tarde. O projecto não difere muito de outros que existem na capital e fora dela, com uma particularidade, todos os que nele participam têm igual salário, quer sejam actores, técnicos ou administrativos, o que justifica o nome da companhia - “somos um colectivo, não temos patrões” -, assegura Carlos Paulo, actor e encenador que já leva 42 anos de vida ligada ao Teatro, 37 dos quais passados na Comuna que, curiosamente, foi o nome de entre dois possíveis – Cómicos e Comuna – escolhido pelos ouvintes de um programa de rádio, em 1972.
“No pós-25 de Abril fomos conotados com o Partido Comunista e sofremos com isso. Impediu ajudas, nomeadamente, o mecenato. Ainda hoje isso de verifica porque a nivel do empresariado há muita tacanhez. Quanto ao público, esse nunca confundiu nada e reconhece a Comuna como um espaço de liberdade e criação”, refere Carlos Paulo.
Primeiro numa garagem na Rua José Fontana, depois num armazém da Central de Cervejas, cujo proprietário, Manuel Vinhas - “tido como um homem de direita, mas que sempre apoiou o projecto” - cedeu e, desde 1975, junto à Praça de Espanha, “nesta casa que foi ocupada pelos actores e por um grupo de 150 espectadores. Veio tudo de metro numa noite, após um espectáculo, fazer a ocupação”, recorda o actor e encenador, a Comuna rapidamente se tornou uma referência cultural da cidade de Lisboa.
Pelos seus palcos já passaram mais de 90 produções exibidas no edifício arerendado à autarquia lisboeta – um antigo colégio alemão que “era um ninho de espionagem durante a segunda Guerra Mundial” que a seguir acolheu mães solteiras a cargo da Casa Pia e passou depois para alçada da Câmara Municipal de Lisboa, entidade à qual a Comuna paga uma renda de valor simbólico. “Construímos depois, com o apoio da Fundação Caloute Gulbenkian, uma nova sala de espectáculos. Quanto ao resto tudo tem sido custeado pelo grupo. Neste momento chove cá dentro, esperamos que a Câmara faça as obras necessárias”, diz Carlos Paulo.
Um problema chamado promoção
Sendo uma companhia subsidiada pelo Minsitério da Cultura - “hoje é certo que os subsídios são maiores, mas o seu valor real é menor porque tudo é mais caro” -, a Comuna queixa-se sobretudo da promoção que é feita da oferta cultural. “Parte significativa dos subsídios vai para a promoção. Quando aparecemos, no tempo do fascismo, tínhamos mês e meio de espectáculos esgotados. Os jornais e as televisões falavam de teatro. O aparecimento da Comuna teve honras de primeira página no Diário de Lisboa e no Diário Popular. Hoje, não há crítica, não há notícias. Os jornais interessam-se pela vida dos actores e não pelo seu trabalho. Torna-se necessário criar estruturas de informação paralelas e essa é uma das propostas que iremos fazer à Câmara de Lisboa: a colocação de mupis em locais privilegiados da cidade onde a oferta cultural possa ser divulgada”, explica Carlos Paulo.
Pese este constrangimento, a Comuna não se queixa de falta de público e a prová-lo está o cartaz para este ano que prevê até Outubro a estreia de duas peças de dois autores do designado “teatro do absurdo” - uma a partir da montagem de vários textos de Samuel beckett intitulada “Felicidade amanhã” e outra de Eugène Ionesco, “O rei está a morrer”. Depois da itinerância marcada para os meses de Maio e Junho, o teatro volta à Praça de Espanha com a reposição de “Desassossego”, um trabalho de Carlos Paulo a partir do “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa que o actor e encenador descreve como o espectáculo da sua vida e que permanece vivo e actuante embora tenha sido estreado há nove anos.
Para a presente temporada está também prevista uma peça infantil, faltando escolher entre “Leanor e a boneca chinesa” de Armando Nascimento Rosa e “Dois reis e um sonho” de Natália Correia. Para conhecer o programa basta uma consulta a www.comunateatropesquisa.pt.
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