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Jornal - Cultura

É sempre assim: quando a Festa termina fica a vontade de que durasse mais dias; resta a consolação de que para o ano há mais. Escrever sobre a Festa do Avante! não é fácil. É necessário vivê-la, senti-la, partilhá-la com os milhares de visitantes que ali se encontram, num reencontro anual de convívio, confraternização, fraternidade, solidariedade. Porque a Festa também é isto – ponto de encontro para, como diz a canção, rever velhas e novas amizades.
Este ano, como sempre, a Quinta da Atalaia, ali à Amora, concelho de Seixal, encostadinha ao Tejo, voltou a engalanar-se para mais uma edição, a 35.ª, da Festa do Avante! repleta de todos os condimentos que fazem com que o primeiro fim-de-semana de Setembro seja uma data muito especial no calendário português. Gente de todas idades e vinda de todo o País (e não só) ruma a um espaço que é único, para três dias de Festa que também são únicos.
Este ano também, a Festa contou com ingredientes únicos: a 2.ª Gala de Ópera, a reencontro com os Trovante, o espectáculo com que Sérgio Godinho assinalou os 40 anos sobre a edição do seu primeiro disco “Sobreviventes”, o regresso dos Xutos e Pontapés, dos Clã, do Camané e, porque é assim mesmo, tantas outras ofertas percorridas pelo denominador comum: qualidade.
“A qualidade associada aos conteúdos é uma preocupação central do programa da Festa”, diz Paulo Loya, da organização da Festa do Avante!, adiantando: “procuramos corresponder a um público muito diversificado. Há as gerações mais jovens que procuram sobretudo a música e depois há pessoas com mais experiência de vida e que preferem a literatura, o teatro, o debate político”.
Na sexta-feira, dia de abertura da Festa, a Quinta da Atalaia encheu-se de uma multidão que queria assistir à 2.ª Gala de Ópera. Levar a música dita erudita para o Palco 25 de Abril foi “um risco que correu bem”. “A ópera é normalmente ouvida em espaços fechados e com condições sonoras e acústicas muito especiais. Este ano houve ópera e sinfonia e voltou a correr bem. Curioso é verificar que muitos jovens assistem e gostam”, refere Paulo Loya. O espectáculo concebido e produzido propositadamente para a Festa teve como mote a “defesa da pátria e do interesse nacional” e nele puderam-se ouvir trechos de óperas de Verdi, Beethoven, Puccini, Bizet, Rossini e Joly Braga Santos, entre outros, interpretados pela soprano Ana Paula Russo, a meio-soprano Inês Thomas de Almeida, os tenores Mircea Nedelescu e João Pedro Cabral, o barítono Luís Rodrigues e o baixo Nuno Dias, acompanhados pela Orquestra Sinfónica do Ginásio Ópera, o Coro do Tejo e o Coro de Câmara de Lisboa, dirigidos pelo maestro Kodo Yamagishi.
Dois outros espectáculos foram igualmente preparados para serem apresentados na Festa do Avante! de 2011; o que assinalou os 35 anos sobre a constituição do grupo Trovante que permitiu o seu regresso à Festa que os acolheu com o carinho do costume. Há 12 anos que João Gil, Luís Represas e companhia não se juntavam num palco e fazerem-no no palco 25 de Abril teve um significado muito especial. “Vinte anos depois da sua dissolução, aquele que foi um dos mais importantes e inovadores conjuntos musicais portugueses regressa à Festa onde tantas vezes actuou e que tanto lhes deu – e, sejamos justos, a quem também tanto deu”.
De regresso esteve também aquele que é, muito provavelmente, o maior escritor de canções português. Sérgio Godinho escolheu a Quinta da Atalaia para assinalar os 40 anos de “Sobreviventes”, o seu primeiro registo discográfico. Num espectáculo com o  no Auditório 1.º de Maiom a abarrotar, Sérgio aproveitou para apresentar o seu último disco, “Mútuo Consentimento”, e para cantar as canções de sempre.
Pensar que a Festa do Avante! é apenas música é muito pouco. A Festa é teatro, cinema, desporto, artes plásticas, ciência, sem esquecer a gastronomia e os petiscos. A Festa é convívio e é também debate político em torno de temas actuais. E pensar que a Festa é apenas para comunistas também é pouco; na Atalaia unem-se comunistas e outros democratas para construirem três dias diferentes, num espaço de liberdade e fraternidade.
No ano em que se assinalam os 90 anos do PCP, a Festa do Avante! voltou a ser um êxito. Pena que sejam só três dias... Até para o ano!