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130 anos

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Jornal - Escrita de Esferográfica


É um edifício já antigo. Velho, agora. Nas janelas do 1.ºandar, um letreiro     identifica-o: Casa de Repouso.

Era a primeira vez que ali ia visitar a avó. Estava um pouco ansiosa. Não reagira bem quando a mãe lhe dissera que ia levá-la para um lar. Apesar de saber como o andar se lhe ia tornando cada vez mais difícil. Mais lento. Os dedos das mãos mais entorpecidos. Quando estava com ela, a imagem que recolhia era a de um sorriso terno e bom que iluminava o rosto semeado de rugas. Era de uma voz meiga. Talvez um pouco triste. Mas sempre interessada por tudo o que se passava para além dos seus dias. Sempre iguais.

Era das histórias que contava, vividas há quanto tempo, mas coloridas por palavras que as traziam para o presente e alegravam os momentos que passavam juntas. Histórias do tempo em que a máquina de costura, agora silenciosa, fazia o milagre de transformar roupa já gasta em roupa nova. Falava-lhe das mulheres do bairro que lhe confiavam o trabalho e do orgulho que sentia pela alegria delas ao regressarem a casa. Sabes, nunca tinham dinheiro para comprar coisas novas – dizia-lhe.

Era esta a recordação que tinha da avó. No entanto, preocupava-a saber que passava muito tempo sozinha. Sobretudo, pela necessidade que adivinhava nela que tinha de falar. Necessidade que ficava fechada. Calada, até nova visita. Mais rara do que ambas gostariam.

A mãe tentava sossegá-la: vais ver que é melhor assim. Não precisa de se cansar a fazer coisas que já lhe custam tanto. Terá quem trate dela. E, além do mais, vai estar sempre acompanhada. Ter outras senhoras para conversar.

Recordou estas palavras quando ia para o lar. Quando subiu a escada dirigindo-se para a sala aonde recebiam as visitas. Tinha imaginado o ruído de vozes entrelaçadas, o som das histórias deitadas para o ar por cada uma das mulheres que ali vivia, colhidas por outras. Partilhadas. Ouvia o ruído de cada um dos seus passos. Nitidamente. Aonde estava a sinfonia de vozes que esperava escutar… Deu por si a andar com muito cuidado, como quem não quer fazer barulho. Muito devagar, entrou naquele espaço. Com o olhar procurou o rosto familiar da avó. Teve dificuldade em o identificar. Dificuldade que não resultava da luz muito fraca que mal iluminava as figuras. Figuras tão semelhantes que pareciam iguais. Como iguais eram as cadeiras em que estavam sentadas. A cor escura da roupa que vestiam. O silêncio dos olhos e das palavras. A indiferença perante as imagens do televisor.

Por fim, reconheceu a avó. Veio-lhe à memória as palavras da mãe quando a levara para o Lar: Vai ter muitas senhoras para conversar. Recordou também o nome escrito nas janelas – Casa de Repouso. Sentiu os lábios a abrirem-se num sorriso amargo pela ironia. Chamar repouso àquelas vidas paradas.

 
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