Durante o mês de Agosto fomos assistindo ao alastrar de uma onda de violência no Reino Unido, que pese embora se tenha iniciado em Tottenham, zona norte de Londres, extravasou largamente a capital britânica estendendo-se às principais cidades inglesas, especialmente as de velha tradição operária como Birmingham ou Manchester.
Ao longo de toda esta crise vimos e ouvimos boas almas perorando sobre o carácter de vandalismo e roubo de que estes levantamentos se revestiam, procurando distanciá-lo de fenómenos de protesto e insatisfação popular perante políticas seguidas ao longo dos anos, no caso da Inglaterra desde o dealbar da era Thatcher, pioneira na Europa das políticas de destruição do Estado e do primado do privilégio e da desigualdade social.
Mas não obstante o seu aspecto rapace, os levantamentos verificados estão inapelavelmente ligados aos cortes de subsídios e apoios à educação, à cultura e ao desporto, deixando uma massa de jovens, que já não conseguia encontrar emprego, numa situação de completa inutilidade e sem qualquer perspectiva de vida actual, porque o futuro há muito estava hipotecado.
Às camadas operárias, ou de extracção operária, e à maioria dos imigrantes, foram deixadas as escolas públicas pior equipadas, onde eram colocados os professores com menos condições pedagógicas, foram fechados os centros sociais e os apoios comunitários e cortados os apoios ao desenvolvimento desportivo das colectividades de Bairro. Contudo continuou o bombardeamento publicitário com os bens que a tecnologia desenvolvia, que lhes era transmitido deverem almejar, mas que jamais poderiam alcançar.
Se se mostrar a um cão um bife, sucessivamente durante dias, e se se esconder sistematicamente esse bife, negando-lhe o seu acesso, mais tarde ou mais cedo o animal se apoderará dele assim tenha possibilidade ou força. Da mesma forma qualquer humano, para mais culturalmente empobrecido, sem ter para onde orientar a sua frustração ou identificar um processo de luta comum, o fará em relação aos bens que todos os dias lhe garantem que deveria ter, mas aos quais não pode aceder.
Os únicos crimes desta gente foram: Ter acreditado naquilo que a sociedade de consumo lhe impingiu. Não ter tido uma capacidade organizativa que orientasse para a luta as suas decepções e aspirações, evitando o desespero. E finalmente foi ter seguido mansamente durante anos aqueles que iam paulatinamente destruindo a própria base da sua existência. Não foi o pilhar os bens que lhe apareciam à frente. Não se queixem da violência do rio, queixem-se das duras margens que lhe foram impondo.