Entrevista
"O Governo e a troika conduzem as pessoas à bancarrota"
| Jornal - Entrevista |
Quais são os principais factores que originaram a presente crise económica e financeira na Grécia?
Na Grécia a crise económica pela qual passamos e as consequências que dela sofremos não é uma coisa acidental e temporária. É o resultado e a prova do modelo de produção capitalista, podre, ultrapassado e parasita. Cada vez mais trabalhadores vêem isso hoje em dia, quando comparam a dívida do estado (350 mil milhões de Euros) com os depósitos dos capitalistas gregos que ascendem na Suíça à quantia de 600 mil milhões de Euros.
A crise, o défice e a dívida são um produto do desenvolvimento capitalista, da estratégia que apoia os grupos monopolistas e os trabalhadores não têm nela qualquer responsabilidade.
A situação na Grécia é uma manifestação de uma crise económica capitalista típica. Isto é uma crise de super-produção e sobre-acumulação de capital.
Como explica/justifica o governo grego, o que se está a passar?
O governo coloca o dilema: Novas medidas anti-populares ou a bancarrota
O Governo mente.
Que respostas dá o Governo grego ao problema?
O governo social-democrata (PASOK) e a troika (UE-FMI-BCE) estão a conduzir as pessoas para a bancarrota usando a dívida como uma oportunidade, com o objectivo de repor a competitividade dos monopólios.
A verdade é que a crise do capitalismo é profunda, que a competição dos monopólios no seio da União Europeia agudizou-se até á forma de bancarrota – quem irá perder significativamente e quem sairá fortalecido no decurso da competição, será julgado pela forma que a bancarrota vier a tomar.
A Nova Democracia (partido conservador) concorda no essencial com o incumprimento selectivo, independentemente do que possa dizer, bem como os outros partidos pró-UE.
E como responde o povo Grego às medidas de austeridade que lhes foram impostas?
Ao longo dos últimos dois anos verificaram-se lutas com orientação de classe multifacetadas contra a investida do capital, as políticas anti-populares do anterior governo conservador da ND e presentemente do governo social-democrata do PASOK, apoiado pelas outras forças políticas burguesas e as lideranças subservientes no governo e nos sindicatos orientados pelo patronato.
Mais de 20 Greves Gerais à escala nacional foram organizadas com sucesso, no período de 2010-2011, da mesma forma uma série de greves sectoriais e nas empresas, manifestações de massas, ocupações de edifícios públicos ou outros, lutas de massas com a participação de centenas de trabalhadores e forças populares.
Não aceitamos nenhuma dívida. A dívida é ilegal como um todo e pertence à plutocracia.
Acerca do incumprimento selectivo
As pessoas não devem de forma alguma cair na armadilha do incumprimento selectivo. Mesmo que escolha o método mais vantajoso para o estado capitalista, o gang dos grupos empresariais domésticos serão beneficiados através de um novo financiamento do estado, enquanto a ofensiva anti-popular iria sofrer uma escalada. Elas têm de estar prontas, organizadas e determinadas para que o governo e as partes da “via de sentido único da UE” saibam que pagaram um preço muito elevado por qualquer tentativa de suspender os pagamentos dos trabalhadores, pensionistas, empregados por conta própria e agricultores. A luta da população e o contra-ataque pela protecção das populações têm de ser fortalecidos para a vitória que apenas virá através do poder popular e a saída da UE.
A Grécia foi forçada a pedir “ajuda” externa. O que significa esta “ajuda” para o povo Grego?
“Ajuda externa” é a tentativa das organizações imperialistas de gerir a crise grega apontando para a salvação do sistema financeiro, de forma a evitar um contágio negativo a outros países europeus, devido a um nível muito grande de interdependência das economias.
Os trabalhadores nada têm de positivo a esperar, porque já faliram. O ataque da plutocracia continuará a escalar de modo a assegurar uma mão-de-obra mais barata, a acelerar a reestruturação e as privatizações e finalmente vender a propriedade pública aos grupos monopolistas.
Apesar das lutas e reivindicações dos trabalhadores, recentemente um novo pacote de austeridade foi imposto ao povo grego.
Que consequências terá na vida dos trabalhadores gregos?
As novas medidas que foram delineadas no chamado “programa de médio prazo” incluem novos cortes nos salários e despedimentos, aumento do horário de trabalho, extensão do trabalho flexível e aumento no IVA de 13 para 23%, novos esforços para os trabalhadores por conta própria, cortes nas pensões, cortes selvagens nos benefícios sociais, privatizações, etc.
Estas medidas destroem os direitos e aumentam a miséria e a pobreza.
O desemprego e os lay-offs cresceram no último ano 30-40%. A taxa oficial de desemprego é de 16%. Cerca de 50% dos jovens trabalhadores estão sem emprego.
Os salários nos sectores público e privado foram reduzidos entre 10 e 30%.
As novas medidas fiscais vão obrigar cada trabalhador grego a pagar um mês de salário em impostos este ano.
Como avaliaria o comportamento da União Europeia em relação à situação da Grécia?
Os trabalhadores gregos não devem esperar qualquer alternativa da União Europeia que lhes traga algum benefício.
A UE negoceia o caminho da economia grega visando a salvação do sistema financeiro, que é o mecanismo fundamental da acumulação capitalista.
O Pacto para o Euro (O Pacto da competitividade) e a Estratégia da UE “Europa 2020”, que foram acordados entre os lideres da UE (conservadores e social-democratas) são aplicados na Grécia e em todos os países europeus.
A classe trabalhadora em todos os países europeus enfrenta uma elaborada estratégia unificada do capital monopolista. A estratégia não visa apenas transferir para a classe trabalhadora todas as consequências da crise económica capitalista, mas em vez disso assegurar a sua rentabilidade a longo prazo pela abolição total dos direitos do trabalho e aumento do grau de exploração.
Testemunhamos o ataque pan-europeu mais brutal e coordenado e simultaneamente a luta mais renhida de cada pais capitalista separadamente para assegurar para si a parte de leão. Esta competição trará mais sofrimento a todos os povos.
Como deve a Grécia resolver este problema?
Temos um caminho, temos uma escolha.As pessoas devem organizar-se elas mesmas com ímpeto para derrubar a correlação de forças em movimento e ao nível político. Apenas assim alinhando com a Frente Militante de Todos os Trabalhadores (PAME), as pessoas terão força. Para um modelo de desenvolvimento de cariz popular, com poder popular e saída da UE, que os trabalhadores alcançarão através da luta. Com um PAME forte e em aliança poderemos fazê-lo.
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