Os olhos dele rasgaram a noite, perdendo-se no vazio. Como se o magoasse poisá-los no início da estrada, do lado de lá, que antes separava a sua Beira do país vizinho. País, em que à entrada, se erguiam uma ou outra gasolineira junto das quais muitos carros faziam fila.
Os olhos dele rasgaram a noite, sim. Não como um dia o haviam feito, há quanto tempo, correndo atrás de um sonho. Construído na espuma dos dias.
A vida na aldeia era cada vez mais penosa. Mas a razão do sonho fora sendo sedimentada por muitas outras razões. Em menino, gostava de mexer nas letras e nos números aprendidos nos primeiros anos da escola. Avidamente, aspirava o cheiro dos lápis acabados de afiar. E descobria o aroma único do papel dos cadernos, que cobria com uma letra cada vez mais firme. Mais bem desenhada.
As mãos presas ao trabalho da terra, na convivência íntima e diária com ele, foram remetendo todos esses gostos para uma memória distante. Cada vez mais distante. Que acabou por diluir-se em todos os futuros possíveis. No entanto, os olhos iam-se perdendo. Sempre curiosos, em tudo o que a vida parecia oferecer-lhe. Oh, mãe, gostava tanto de… Uma festa nos cabelos. Por vezes mais arrastada. Como se assim lhe quizesse dizer que não podia fazer nada. Mas gostaria de fazer tudo para que as mãos do seu menino continuassem no caminho das letras e dos números. Em contraste com as suas. Deformadas. Gastas. Também ela gostaria de ter ido à escola. Mas, na sua infância, as raparigas eram necessárias para tomar conta dos irmãos mais novos e ajudar no campo. E só aos rapazes, e nem sempre, era permitido saber ler e escrever. Orgulhava-se de que os seus filhos e filhas tivessem igualmente tido a oportunidade de aprender.
À saída da sua terra, existia um posto de gasolina. Ainda criança, começou a sentir-se fascinado por aquele movimento de mãos agarrando nuns tubos enormes que se ligavam aos carros.
Mais tarde, sonhou ter uma gasolineira sua. Conseguiu concretizar esse sonho. E assim o baptizou, desenhando-lhe o nome com a sua letra que nunca perdera a firmeza e a beleza do traço.
Os olhos dele rasgaram a noite, sim. Percorreram a estrada. Viram, dolorosos, os carros passarem. Apressados. Sem parar. As suas mãos imaginando os gestos espantados da infância, agarrando os tais tubos enormes, com a força do homem que era agora.
O lucro. O lucro, sempre. De um lado ou de outro das fronteiras a desenhar a vida dos homens.