
O peixe e o prato
| Jornal - Escrita de Esferográfica |
Enquanto se sentava à mesa, o menino já olhava o prato em que o almoço era servido. Franzia a cara e desviava os olhos. Enjoado. Era sempre assim quando deparava com uma posta de peixe. De qualquer qualidade. Fosse qual fosse a forma de ser cozinhada. Disfarçada, até. Não chegava a dizer que não queria. Nem sequer que não gostava. Mas era difícil convencê-lo a comer apesar de todos os argumentos usados pelos pais. E ele lá ia engolindo. Muito vagarosamente. Sem qualquer prazer.
O pai sorria-lhe com um sorriso cúmplice que acompanhava com uma festa na cabeça, enquanto dizia apenas: anda, come lá. Faz-te bem. Esse sorriso, essa festa, essa cumplicidade eram fruto da sua própria experiência. Também ele nunca esquecera o desagrado que todo o peixe lhe provocava quando era criança. Também ele o acumulava nas bochechas aonde ia ficando mais seco e mais difícil de engolir.
Tinha bem vivas dentro de si as férias na praia passadas com os pais. O chapinhar naquele mar imenso. As rochas cobertas por pequenas lapas que eram o seu encanto. Lembrava-se, sobretudo, de uma pequena poça a que chamava sua e tentava encontrar todas as manhãs. Como seu era um pinheiro, entre todos os do pinhal que envolvia a praia, a que chamava seu também e ao qual trepava, sentindo-se como um cavaleiro das histórias que lhe contavam. Para ele, menino, a praia era tudo isso.
Naquele Verão, como em muitos outros, estava uma manhã clara, límpida. O pai dissera: hoje, vamos à praia da Vieira ver a pesca. Ele, que só conhecia o areal extenso em que brincava, viu pela primeira vez um outro semeado de grandes barcos, em vez dos toldos em que se abrigava quem ali passasse os meses de Verão. Alguns desses barcos, vindos do mar agreste, iam-se aproximando da terra aonde as redes eram puxadas por homens de mãos rudes e calejadas. Com toda a força dos seus braços. Em voz arrastada, produziam em uníssono um som que os ajudava a puxá-las pela areia adentro. À sua volta, vários meninos olhavam ansiosos os pequenos peixes que, presos na rede, ainda estrebuchavam num esforço para sobreviver. E com as suas pequenas mãos tentavam prendê-los. Já os imaginavam transformados na próxima refeição.
Para ele, foi como mergulhar num outro mundo. O peixe apareceu-lhe, não como aquela comida que lhe era posta no prato, mas algo como o fruto do esforço de homens que via pela primeira vez. Homens diferentes dos que faziam parte da sua vida.
Quando, no dia seguinte, o almoço lhe ofereceu uma posta de peixe grelhado, sentiu que nunca mais o rejeitaria.
Lembrando a sua própria infância, continuou a olhar o filho com o mesmo sorriso cúmplice. E teve pena de já não o poder levar àquela praia de pescadores, cujas casas haviam desaparecido para dar lugar a prédios altos. Só lhe restava continuar a dizer-lhe: anda, come. Faz-te bem.
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