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INSCRIÇÕES ABERTAS 2012 / 2013

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Jornal - Escrita de Esferográfica

O espaço era largo. E mais largo parecia porque a quase escuridão que o envolvia não deixava adivinhar aonde terminava. Largo e quase silencioso. O ruído que um ou outro carro fazia ao entrar ou ao sair era o único que quebrava o silêncio. Silêncio que ele sentia como um enorme peso, naquele parque subterrâneo do grande hipermercado. As horas estendiam-se ao longo dos dias. Intermináveis. E, quando chegavam ao fim, os olhos tinham dificuldade em adaptar-se à luminosidade do exterior.

Entre o tempo presente e o passado parecia existir uma espécie de cortina. Talvez para que a diferença não doesse tanto. Mas, de vez em quando, lá vinha a recordação do velho António que lhe dera trabalho na mercearia de bairro e da expressão vencida com que lhe comunicara que tinha que fechar a porta. Quase sem coragem para lhe dizer por palavras que a porta fechada significava também uma despedida. Não um despedimento. Porque a ausência de trabalho dizia respeito aos dois. A fruta e os legumes que enfeitavam o passeio em frente da entrada, espalhando no ar um aroma fresco e bom, eram ultimamente recolhidas no final do dia, perdendo o viço quando colocadas de novo na manhã seguinte. E, por detrás do balcão, os dois homens enganavam o tempo parado arrumando vezes sem conta as mesmas pequenas coisas. Olhando, através da porta aberta, os vultos da gente que passava. Na esperança de que alguém parasse e entrasse. E isso era cada vez mais raro.

A porta da loja foi definitivamente fechada pelos dois. Os anos que tinham passado lado a lado haviam feito nascer uma amizade cúmplice entre ambos. E desejaram um ao outro boa sorte. Sinceramente, mas sem grande convicção.

Quando lhe ofereceram, mais tarde, o lugar de vigilante num grande hipermercado, um sorriso quase luminoso nasceu dentro dele. Terminariam os longos meses difíceis. Quase insuportáveis. Passados nos centros de emprego, sentado ao lado de muitos outros. Com os mesmos olhos vazios. Os mesmos braços caídos, esquecidos da própria força.

Os carros passavam e seguiam sempre. A luz dos faróis rompia por instantes o negrume para logo este voltar a inundar tudo. Seguia-lhes o rasto até desaparecerem.

Um dia – seria de manhã, seria de tarde – um deles abrandou e uma voz feminina cortou o silêncio: diga-me, por favor… Era uma pergunta simples que pedia uma resposta simples. Mas para ele era mais do que isso. Era a oportunidade de cruzar a sua voz com outra voz. E, sem dar por isso, a explicação alongou-se. Já não se fez ouvir até ao fim. O carro arrancou. Sem um obrigado. A dona da voz feminina vinha apressada do hipermercado. Para ele o negrume voltou a inundar o espaço. Mais denso ainda.