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130 anos

Início - Escrita de Esferográfica - O ventre aberto da cidade

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Jornal - Escrita de Esferográfica

O homem tinha um corpo volumoso. Pesado, que mal parecia caber na cadeira. A cabeça estava caída para cima do ombro esquerdo. O boné que cobria o cabelo e os óculos escuros que lhe escondiam os olhos não lhe deixavam adivinhar as feições. Figura imóvel era aquela. Uma imobilidade acentuada pelas mãos de dedos entrelaçados. Estáticos, como tudo o resto. No entanto, daquele conjunto saía o som roufenho de uma canção antiga que se espraiava pelo passeio junto ao supermercado do bairro das avenidas novas. Quem passava nem sequer parava, enfiado na sua própria vida. Uma ou outra pessoa lançava um vago olhar. Um vago olhar talvez curioso. Porque era difícil ficar indiferente. Junto à cadeira, poisado no chão, um acordeão adormecido. Mas o som que dali nascia era bem alto. Vinha certamente de uma qualquer leitor de cassetes que espreitava debaixo da manta que lhe cobria as pernas. Podia-se imaginar quem ali a teria colocado. Quem teria transportado aquele ser humano transformado agora numa figura imóvel. A razão estava numa pequena caixa pousada no colo. Esperando uma moeda. Chamemos-lhe uma esmola.
Como tudo o resto, difícil seria adivinhar a idade do homem. Mais fácil, em traços largos imaginar-lhe a vida. Porque, por detrás daquela imobilidade, havia um passado. Antes que uma qualquer doença o tivesse atirado para uma cadeira. Havia uns braços, de certo outrora fortes, capazes de agarrar instrumentos de trabalho. Fôsse na enxada, no campo onde podia ter nascido. Fôssem os necessários para ajudar a construir casas aonde nunca poderia ter morado. Como as da avenida aonde se encontrava naquela manhã cinzenta. Perdidos no tempo, talvez ainda recordados por alguém, gestos de carinho que aqueles braços certamente haviam distribuído e recebido. E palavras mansas de carinho, também. Ou outras, quem sabe, mais fortes. De afirmação. De luta, até.
Aquele homem tivera uma vida sim. De certo uma vida árdua. Difícil. Ou não estaria atirado para uma cadeira, com uma pequena caixa poisada no colo. A mendigar uma moeda.
Ou então, poder-se-á imaginar que fora um menino que nascera cego. A quem nunca deixaram alternativa para além do acordeão que tocara pelas ruas, ao longo de toda a vida. Com uma pequena caixa aguardando uma esmola.
Como agora.

 
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