Escrita de Esferográfica

Momentos

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Jornal - Escrita de Esferográfica

Assente no passeio, junto à fachada, a mulher colocou o cesto largo e comprido. Das peças de roupa que o enchiam espalhava-se um colorido intenso. O corpo tentava descansar de encontro à parede, enquanto aguardava que alguém parasse e se interessasse em levar uma coisa ou outra. Manhãs inteiras em que isso mal acontecia.
Há muito tempo que era conhecida por algumas mulheres que por ali viviam ou trabalhavam. E vinha um bom-dia dado com afecto. E palavras amigas, também. Então, Elvira, isto está mau. Era a maneira de expressarem a razão por que nada levavam consigo. Assim, o cesto era transportado penosa e diariamente de uma casa distante para aquela rua.
Durante as longas horas que ali passava, os olhos paravam, por vezes, no interior do cesto e não era roupa o que viam. Perdiam-se em imagens que regressavam dos canteiros do pequeno jardim da sua infância. Eram tapetes de ervas e de flores. Quase lhes sentia o aroma. E o sorriso, geralmente ausente, ou vago e triste quando acordava, abria-se numa pincelada doce de ternura que o tingia quase de alegria. Porém, a realidade tinha mais força. Impunha-se. E logo o colorido perdia toda a beleza.
Viu a menina que passava, vagueando pela rua, aconchegando um pouco ao corpo o vestido já gasto, deslumbrada com as pequenas peças que se exibiam diante dos seus olhos. A mulher, agora acordada do seu sonho, reparou nela. Mais uma vez, regressou à sua infância vestida de roupas que nunca tinham o sabor de coisas novas. E disse-lhe que escolhesse uma das pequenas blusas de que mais gostasse.
Há momentos em que um olhar cúmplice dispensa as palavras e aquece o silêncio. Feliz por estar a viver um dia tão diferente, a menina entrou numa pastelaria que encontrou no caminho. Ficou fascinada por um bolo coberto com um farto creme e enfeitado com pequenos frutos. Confiante, aproximou-se de uma senhora que ali tomava um café junto ao balcão, puxou-lhe um pouco pela saia apontando para a sua escolha.
A senhora, incomodada pelo atrevimento mas sem querer perder a oportunidade de fazer uma boa acção, pediu apenas um bolo de arroz que, segundo os seus princípios, era o mais adequado à condição daquela menina.