Internacional
Onde a História (con)vive
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Na cidade velha de Damasco sente-se o peso dos milénios. Considerada a capital mais antiga do planeta, o seu nascimento remonta a 5000 antes de Cristo, no chamado período calcolítico. Foi encruzilhada de impérios e civilizações: Alexandre da Macedónia, Calígula, Saladino, Suleiman de Constatinopla ali deixaram a sua marca.
Nos tempos medievais, era citada como a mais populosa cidade do mundo. As cruzadas fustigaram-na, mas reergueu-se uma e outra vez. Uma das rotas da Seda aí teve o seu termo. Hoje, é uma metrópole que pulsa de vida com os seus quatro milhões de habitantes.
Em 16 de Janeiro, Damasco foi ponto de encontro para a fraternidade dos povos em luta: ali se realizou a jornada internacional de solidariedade com a Palestina, promovida pelo Partido Comunista Sírio. Milhares de homens e mulheres, muitos deles jovens, ergueram a sua voz contra os crimes de Israel e o imperialismo, exigindo o fim da brutal agressão militar a Gaza, o fim do cerco e da ocupação de Israel sobre a Palestina.
Em representação do meu Partido, desloquei-me à Síria para participar naquela acção de solidariedade, a par de representantes dos partidos comunistas da Grécia, Turquia, Chipre, Itália, Líbano, entre outros. Em conjunto com o Partido Comunista Sírio, organizaram aquela iniciativa a Frente Democrática para a Libertação da Palestina, a Frente Popular para a Libertação da Palestina e o Partido do Povo da Palestina. Ali estavam também organizações sírias de Trabalhadores, Agricultores, Estudantes.
Naquela brevíssima passagem por Damasco, impressionou a incomparável riqueza da identidade histórica e de tantas heranças culturais, a par da vitalidade com que ali se percorrem os caminhos da transformação e do desenvolvimento.
Logo à chegada ao Aeroporto de Damasco, o equívoco de dois companheiros de viagem tinha-me deixado a pensar nos investimentos que devem estar na calha: tal como eu, aqueles dois passageiros de jeito despachado e decidido acabavam de chegar de Lisboa. Talvez achando que eu tinha ar de português (seja lá o que isso for), um deles abordou-me sorridente: “o amigo por acaso não é da Martifer, não?” Pois não. O Grupo Mota Engil havia de estar por ali algures, mas não comigo...
Com efeito, saltam à vista na cidade os trabalhos das novas construções. Habitação, acessibilidades, serviços públicos. Em 2008 foi lançado o projecto para a rede de metro de Damasco, previsto para 2015. Até lá, a solução passa pelos milhares de mini-autocarros que correm (ou tentam correr) por uma cidade cada vez mais preenchida de automóveis de todo o tipo e fabrico.
A Síria produz e é exportadora de petróleo e gás natural, bem como de alimentos (cereais, prinicipalmente). Trabalhar os campos é uma proeza antiga que continua hoje, numa terra onde se leva a água para romper o deserto. O contravapor vem das “sanções” económicas imperialistas dos EUA, e até das exigências de defesa. Afinal, Israel está ali ao lado, ocupando os montes Golã, e ainda hoje está oficialmente em guerra com a Síria. O caminho não tem sido o mais fácil para aquela economia, e com o tempo, a balança comercial foi tornando-se desfavorável. Para os jovens trabalhadores, têm sido tempos difíceis.
O desemprego entre os jovens sírios (19%) está cinco vezes acima da média nacional, mas há uma melhoria face aos 26% de 2005. De resto o avanço social é concreto: a educação, a saúde, a segurança social são um direito, a idade de reforma é de 60 anos. A aposta no desenvolvimento científico e técnico, a par da consolidação do aparelho produtivo, levou um número crescente de jovens às universidades.
Aliás, o peso da juventude na população síria é muito forte. A média etária na Síria é de 21 anos (em Portugal é de 41). Os jovens marcam a vida quotidiana da cidade. Safwan, estudante universitário, evidenciou a simpatia com que Damasco nos acolhe. Pedi-lhe uma informação sobre o caminho, e ele foi-me explicando. Mas quando a dificuldade em comunicar se tornou maior, a solução foi simples: pegou no telemóvel e telefonou a um amigo que falava inglês melhor que ele. Depois passou-me a chamada...
A afabilidade, a atitude acolhedora que ali transparece casa bem com o ambiente de tranquilidade que o peso da História confere à cidade – particularmente à cidade antiga. Na milenar Mesquita de Omayad, a mais importante de Damasco e uma das mais antigas do mundo, imaginava encontrar um ambiente pesado, circunspecto. Enganei-me. As crianças brincavam e corriam por todo o lado. As famílias enchiam aquele espaço de vida e alegria, simplesmente usufruindo de uma tarde de sol num lugar de beleza ímpar. Para além do importante local de culto que é, aquela Mesquita simboliza bem a forma como a população de Damasco vive (e convive com) a História e o Património.
Ainda hoje, o fascinante Souk de Al Hamidieh – o mercado tradicional que é porta de entrada para a cidade antiga – é testemunho da memória síria e, ao mesmo tempo, de orgulho nacional. Ao longo de toda a cobertura do mercado, centenas de buracos deixam passar feixes de luz do sol. Ainda hoje aqueles buracos no tecto são como um monumento à independência: foram deixados pelos ocupantes turcos em 1918.
Expulsos pelos patriotas sírios (com a ajuda do famoso T.E. Lawrence “da Arábia”), os otomanos fugiram por ali, dando tiros para o ar. O resultado é de uma beleza simples mas deslumbrante; é como que um céu cheio de estrelas a cintilar em pleno dia. Entretanto, acabei por reparar que à minha volta mais ninguém se punha a olhar para o tecto. O Souk fervilhava de compras e vendas, enchendo o ar de um perfume de especiarias carregado de História. Aproximava-se a hora de regressar para Lisboa.
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