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postheadericon O imperialismo, hoje

Jornal - Internacional
 Em 1917 era pela primeira dada à estampa uma das mais conhecidas e mais importantes obras de Vladimir Ilitch Lenine: “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”. Em plena Primeira Guerra Mundial, considerava Lenine que se impunha analisar aquilo que considerava ser “um problema económico fundamental”, para a partir daí encontrar as razões profundas de uma guerra que, pela sua extensão geográfica e nível de destruição gerada, não encontrava paralelo até então. Sem o estudo deste problema económico, considerou Lenine, “é impossível compreender seja o que for quanto ao que são hoje a guerra e a política”i. Assim continua a ser, 94 anos decorridos.

Não pretendem estas linhas abordar em detalhe, ou superficialmente que seja, a (manifesta) actualidade da citada obra de Lenine e do seu pensamento. Mas somente assinalar que uma correcta e completa compreensão do que hoje se passa à nossa volta não é possível sem ter em conta os desenvolvimentos associados à crise do capitalismo – enquanto sistema económico e social hoje largamente dominante à escala mundial – no seu estádio imperialista.

Tendo assumido significados diferenciados e sido alvo de interpretações distintas ao longo dos tempos, é a partir dos finais do século XIX que se associa ao imperialismo um sentido que, de certa forma, persiste até hoje: o da intensificação da conquista de influências, recursos, territórios e colónias, por parte de alguns países capitalistas mais desenvolvidos. Esta intensificação, reveladora da agressividade do sistema, era já então impulsionada pelo desenvolvimento das características fundamentais do modo de produção capitalista e pela emergência das suas contradições intrínsecas.

Se as manifestações visíveis do imperialismo evoluem com o tempo, a sua essência permanece.

Como refere Rui Namorado Rosa, num recente e valioso contributo para a compreensão do tempo histórico que nos é dado viver, “o que estava e está em jogo é o acesso seja ao materialmente essencial seja ao acessoriamente desejável. E o essencial são os bens alimentares, sempre, e as matérias-primas e a energia para as sociedades industriais”ii. Procura-se, por meios diversos, o controlo das fontes de produção de matérias-primas e de energia, dos seus fluxos e rotas de transporte, dos mercados e também da força de trabalho.

Claro está que esta procura encontra resistências. Seja em resultado do desenvolvimento das lutas dos povos – de que a luta de resistência nacional à ocupação é um exemplo concreto –, seja em resultado da própria competição entre potências imperialistas – de que resultaram as duas guerras mundiais do século passado.

Os meios hoje ao dispor do imperialismo são diversificados. A liberalização e desregulação do comércio mundial e a actuação no seio da Organização Mundial de Comércio, as várias formas de neo-colonialismo visando estabelecer e aprofundar relações de dependência, a actuação do FMI e Banco Mundial, são alguns exemplos. Mas também a força militar e a guerra, que têm vindo a ser aberta e crescentemente utilizadas. A chamada alteração do conceito estratégico da NATO, enquanto afirmação e consagração do carácter ofensivo (e não defensivo) desta organização militar, tem aqui um papel central.

A guerra, a destruição e a morte espalhadas na Líbia pela máquina de guerra da NATO, (mal) disfarçadas de “intervenção humanitária”, assumem evidentes contornos coloniais. Não há operação mediática, por mais avassaladora e sofisticada que seja, que oculte a criminosa face do imperialismo em todo este processo. O mesmo se poderá dizer relativamente às guerras no Iraque e no Afeganistão.

Mas outras ameaças pairam no horizonte. A escalada nas ameaças e na postura de confronto com a Síria, com o Irão ou até mesmo, mais recentemente, com o Paquistão; a intensificação da presença e das manobras militares no Sudeste Asiático (Mar da China, Península Coreana), no Médio e Próximo Oriente, em África, na América latina, no Atlântico sul (com a reactivação da IVª frota da marinha de guerra dos EUA), são alguns dos motivos de preocupação. No seu conjunto, configuram uma ameaça séria à paz e à segurança mundial, mas também ao desenvolvimento, justo e harmonioso, das sociedades e ao progresso social.

O imperialismo confronta-nos hoje com novas e velhas (no fundo, todas velhas) tentativas de subjugação dos povos, novos ataques à sua soberania e novas investidas de controlo e rapina dos recursos do planeta, que vêm denotando uma agressividade crescente.

Torna-se imperiosa a dinamização e o reforço de uma ampla frente de luta anti-imperialista, pela superação de um sistema intrinsecamente injusto, desigual e opressor. “Uma luta que sendo nacional é dirigida contra os fundamentos de um sistema mundial, e que apela à cooperação internacionalista”ii.

iI Vladimir Ilitch Lenine, “O imperialismo, fase superior do capitalismo” (Prefácio do Autor), Edições Avante, 1975.

iiRui Namorado Rosa, “Crise e transição política - Metabolismo social e material”, Edições Avante, 2011.

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