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130 anos

Início - Jornal "A Voz do Operário"

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postheadericon AIL pede intervenção do Presidente da República

Área Metropolitana de Lisboa

No passado dia 18 de junho, a Associação de Inquilinos Lisbonenses (AIL) reuniu a assembleia de inquilinos e decidiu exigir uma audiência a Cavaco Silva para lhe colocar as suas preocupações relativamente ao Novo Regime de Arrendamento Urbano, vulgo “Lei das rendas”, que considera tratar-se de uma “Lei de despejos”. Romão Lavadinho, presidente da AIL, refere mesmo “milhares de despejos” que afetarão sobretudo “gente muito idosa e pessoas social e economicamente desfavorecidas”, mas também pequenos e médios empresários, o que se refletirá num aumento do desemprego.
A proposta de Lei do Governo PSD/CDS (Lei 38/XII) já foi aprovada em sede de Assembleia da República com os votos dos partidos que sustentam o Executivo de Passos e Portas. Segue agora para promulgação pelo Presidente da República, porém, a AIL quer evitar que os aspetos mais gravosos da Lei sejam sancionados por Cavaco Silva.
Destes aspetos, a Associação dos Inquilinos destaca o fim dos contratos de arrendamento celebrados antes de 1990 (o que permite que de forma discricionária e arbitrária os senhorios decidam a denúncia destes contratos); a imposição de rendas especulativas e insuportáveis para a maioria das famílias; a facilitação de despejo mesmo para inquilinos cumpridores; a incapacitação das atividades económicas e sociais e o aumento do desemprego; o favorecimento da especulação imobiliária; a possibilidade de arrendamento de fogos sem quaisquer condições de habitabilidade e sem obras de reabilitação.
A alteração aos contratos firmados antes de 1990 pode resultar, de acordo com a AIL, numa inconstitucionalidade, dado que “os inquilinos não terão qualquer oportunidade de decisão, porque a não aceitação levará ao despejo ou então a pagarem, durante cinco anos, o novo valor da renda. Findo o prazo de cinco anos, os inquilinos ficam sujeitos, mais uma vez, ao livre arbítrio do senhorio, porque ou continuam com novo contrato por dois anos e nova renda, ou o contrato é denunciado” e o locatário despejado.
Uma das justificações apresentadas pelo Governo PSD/CDS para as alterações à “Lei das rendas” prende-se com a “dinamização do mercado de arrendamento”. Romão Lavadinho considera tal justificação “uma inverdade e afirmação irresponsável”. “A dinamização do mercado de arrendamento não está diretamente relacionada, nem resultará dos despejos dos 255 mil contratos anteriores a 1990, isto é, daqueles que sempre cumpriram as obrigações contratuais. A existência, neste momento, de 734 mil fogos devolutos é a melhor forma de denúncia da afirmação referida sobre o desenvolvimento do mercado e da sua reanimação. Se estes fogos fossem colocados no mercado de arrendamento a preços acessíveis, e tendo em conta o rendimento dos inquilinos e uma remuneração justa do capital investido pelos proprietários, então o mercado estaria suficientemente abastecido e a funcionar, respondendo às necessidades das famílias e do comércio, hotelaria e serviços”.
Todas estas questões foram levadas pela AIL aos grupos parlamentares, mas apenas PS, PCP, BE e PEV se mostraram sensíveis aos argumentos. “Das várias entrevistas que tivemos com os deputados do PSD e CDS, ficou claro que a sua disposição não estava virada para aceitar alterações à proposta em discussão, mas para manter todos os artigos da Lei sem ter em conta o que isso representa para as famílias, instituições e empresas”, relata o presidente da AIL que considera a legislação produzida “um recuo civilizacional, um regresso a meados do século XIX, época em que os inquilinos não tinham qualquer direito”.
Entretanto, Romão Lavadinho deixa uma mensagem aos inquilinos de Lisboa: “se a Lei for promulgada, e antes que surja alguma proposta dos senhorios, dirijam-se à AIL que prestará todos os esclarecimentos necessários”.

A.G.

 

postheadericon A desvalorização do trabalho

A Palavra do Presidente

A campanha em curso de desvalorização do trabalho, que nos vai sendo profusamente difundida pela comunicação social ao serviço da ideologia neoliberal, atingiu o seu auge com a promulgação das últimas alterações à legislação laboral.
De facto, apesar de ser o trabalho a única fonte de criação de riqueza, para a ideologia neoliberal os trabalhadores são uma mercadoria desprezível e descartável, desprovidos de quaisquer direitos. São eles os culpados de todos os males. Aliás, até evitam tratá-los por trabalhadores, essa palavra subversiva e até obscena, preferindo antes o eufemismo de “colaboradores”, considerando-os disponíveis para colaborar com a exploração de que são alvo.
A dignificação do trabalho sempre foi uma bandeira de luta dos trabalhadores e dos povos, pese o esforço do capital para o desprestigiar.
O Presidente da República promulgou há dias as alterações ao Código do Trabalho, deitando às malvas o juramento que fez perante os portugueses de cumprir e fazer cumprir a Constituição, argumentando que é uma decisão da troika, como se fosse o BCE, a União Europeia e o FMI a determinarem o nosso futuro e o que é igualmente espantoso, considerando que só 15 por cento dos deputados votaram contra a legislação laboral, esquecendo anteriores vetos seus a diplomas aprovados por unanimidade na Assembleia da República.
O pacote laboral, que a UGT numa vergonhosa postura de capitulação e de traição aos interesses dos trabalhadores assinou, vem agravar ainda mais a dramática situação social e económica dos trabalhadores e das famílias portuguesas, configurando o maior retrocesso na história das relações laborais no Portugal democrático.
Preconiza a desvalorização do trabalho e o aumento da exploração dos trabalhadores, através de medidas como a redução das férias e dos feriados, os cortes nas horas extraordinárias e outros abonos, a desregulação dos horários e a criação de bancos de horas geridos à discrição do patronato, o ataque à contratação coletiva e a facilitação dos despedimentos, tendo como resultado a redução dos salários e o aumento da exploração e a generalização da precariedade e da insegurança dos trabalhadores.
Estas alterações legislativas são todas contra os interesses dos trabalhadores e vão integralmente ao encontro das pretensões do capital.
Só o maior desaforo pode sustentar a tese de que este drástico ataque aos direitos dos trabalhadores, visa reforçar a competitividade da economia e levar-nos a sair da crise. Os anteriores agravamentos das condições de trabalho, realizados com o mesmo falso pretexto, em nada contribuíram para a melhoria da situação económica, tendo apenas resultado no aumento do desemprego e da precariedade, a par da degradação da situação do País.
Estamos perante uma enorme tentativa de desvalorização do trabalho e dos salários, num país em que esses custos são claramente inferiores à média europeia, ao mesmo tempo que somos dos que trabalham mais horas por semana.
As terríveis consequências sociais e económicas das políticas de direita estão claramente à vista e têm sido significativamente agravadas nos últimos tempos. O que assistimos é a um aumento gravíssimo das desigualdades e injustiças sociais e a um empobrecimento generalizado que atinge a maior parte dos portugueses e, em especial, os que dependem dos rendimentos do seu trabalho e os reformados e pensionistas, reforçando as profundas injustiças na distribuição do rendimento.
Mas esta batalha ainda não terminou, quer em termos institucionais, com o desencadear do processo de fiscalização sucessiva pelo Tribunal Constitucional ao novo pacote laboral, quer no plano dos trabalhadores, que certamente irão dar forte combate à implementação destas medidas.
Vamos entrar num período de merecidas férias, infelizmente muito amargas para a maioria dos portugueses. Apesar das dificuldades, esperamos que sirvam para descansar e para o retemperar de forças para as importantes batalhas que temos pela frente.

Manuel Figueiredo

 

postheadericon Austeros

Editorial

Por norma da definição de austero é referente a alguém que se aplica um modo de existência espartano, com pouco ou nenhum conforto, com reduzidos atavios de apresentação, e normalmente com prazeres muito simples e limitados.
Por norma também não há crime nenhum nessa atitude e é muito respeitável se não advier de uma imposição ou pressão social.
Ao longo da história as sociedades austeras normalmente impuseram-se como reacção às sociedades de opulência e fausto, que não raras vezes se entregaram à ostentação pura e simples de algumas classes, construída sobre a penúria e sofrimento das vastas maiorias. E, com mais ou menos exagero, com mais ou menos doses de hipocrisia, foram moldando o seu período histórico. E até aqui tudo bem.
A moderníssima austeridade social imposta de fora e com as devidas cumplicidades internas não se faz porém como reacção a coisa nenhuma. Ou melhor, faz-se por reacção às medidas de carácter social que garantiam que a penúria e a miséria não grassassem como grassaram nos séculos pregressos.
Não existiu nenhuma rejeição social do fausto, bem pelo contrário, a austeridade aplicou-se para que alguns pudessem reparar enormes perdas que tiveram na sustentação de um modelo económico não produtivo, e prosseguir sem danos a ostentação de uma munificência inexistente. Enquanto aqueles que, pela sua idade ou por serem excendentários via contracção da economia a valores mesmo abaixo da sua produção, se viam privádos de toda a espécie de bens e serviços para os quais já haviam contribuído ou continuavam a contribuir.
O facto da maior fatia dessa austeridade recair sobre a Função Pública nada tem de moralizador ou de harmonização de condições laborais. É tão somente uma forma de minar a capacidade de resposta do Estado perante a apropriação pelos privados dos sectores com hipótese de lucro, chamados eufemisticamente "mais interessantes" e ao mesmo tempo paralisar as funções sociais deste, levando a população a crer que se os serviços fecham é porque a situação é tão grave que é uma escolha de fim de linha.
Há uma anedota sobre o Presidente norte-americano Harry Truman, em que este reunia na Casa Branca uma série de economistas para lhe darem respostas, e estes diziam que, se numa mão tínhamos um aspecto, na outra tínhamos outro. Por não entender estas alternativas o Presidente Truman pedia desesperadamente que lhe arranjassem um economista maneta.
Quando se advoga que não existem alternativas, é um total sofisma, alternativas existem sempre, porque há sempre diferentes formas de agir, o que não há são alternativas cujo resultado seja o mesmo. E é a diferença de resultados das alternativas apresentadas que desagrada sobremaneira a quem determina a comunicação, normalmente os mesmos cujas perdas procuram colmatar acentuando as desigualdades, e aos seus serventuários que a fazem. Provavelmente gostariam de um povo austero e maneta.


Carlos A. F. de Moura

 

postheadericon "Aqui somos mais livres e podemos pensar"

Destaque

Chegou o momento da partida. Os alunos que terminaram o 6.º ano dizem adeus à escola A Voz do Operário. Há quem nunca tenha conhecido outra escola. Alguns vieram para A Voz com apenas quatro ou cinco meses de vida. Há um sentimento generalizado de tristeza e as saudades já se fazem notar. Porém, também existe uma forte expetativa em relação ao futuro e a convicção de que d'A Voz levam uma experiência que lhes vai ser “muito importante” na nova etapa que vão iniciar. A todos eles os votos de muitos sucessos e a certeza de que n'A Voz haverá sempre abraços disponíveis.

“...Ainda que tenham imensos alunos, todos os funcionários conhecem a minha filha pelo nome; após dois dias de lá ter chegado (em março), os funcionários da portaria, sem lhes perguntar, deram-me o feed-back - “esteve bem como se sempre estivesse aqui”. Hoje, como sempre, fiquei a ver como entra “pela porta do lado”; ao chegar um pouco atrasada, não foi brincar no recreio e foi a correr para as escadas que a levam à sala; encontrou a cozinheira ou alguém da cantina, esta abraçou-a, falou com ela e deu-lhe beijinhos. Nestes quatro meses viu cinema e exposições para além da aprendizagem regular. Tem um conceito de justiça reforçado, bem como, um sentido de crítica em relação a quem se porta mal bastante apurado. Relata-me que é ouvida, de forma disciplinada, escrevendo no livro e que isso é tido em conta. Sempre que se magoa, relata sempre que alguém a assistiu, a ouviu e cuidou dela”.
Odete Almeida, mãe de aluna de A Voz do Operário

As escolas de A Voz do Operário são únicas. Não é um exagero dizê-lo e não é só por nelas se aplicar um método de ensino – Método da Escola Moderna (MEM) – que privilegia a formação integral dos alunos, que respeita as diferenças, que promove o gosto pelo conhecimento e pela descoberta, que prepara cidadãos intervenientes, que incrementa a partilha e a cooperação e que baseia a educação na liberdade/responsabilidade, na solidariedade, na vivência democrática. É também porque, nas escolas de A Voz, os alunos são: “os nossos meninos e meninas”. E eles sabem. Por isso, se há dificuldade em apertar os atacadores ou o botão das calças, se algo se perde, se alguma coisa preocupa, o primeiro adulto que se encontra é convocado para ajudar. “Nos momentos mais difíceis, todos ajudaram e todos apoiaram. Foi muito bom”. As palavras são da Ana Carolina, de 11 anos, que frequentou o 2.º ciclo e que, “com muita pena”, terá de deixar A Voz.
Os alunos que terminaram o 2.º ciclo destacam o papel do corpo docente. É natural. Foi com os educadores e os professores que fizeram quase todas as aprendizagens. Mas tal facto resulta igualmente dos docentes se assumirem como “pessoas que ajudam”, como confidentes, como amigos. “O primeiro ciclo parecia mais a brincar. O 2.º ciclo foi muito mais difícil e foi muito importante a ajuda dos professores”, relata o André, de 11 anos.
“Os professores explicam a matéria de maneira adequada a que nós possamos perceber melhor as coisas”, diz Laura, de 11 anos, secundada pelo Bruno, de 12 anos e que entrou n'A Voz “a meio do 1.º ano”: “a forma como os professores dão a matéria e as aulas, a forma como esta escola com quase 130 anos está cuidada e os amigos que aqui fiz, foram muito importantes para conseguir o que consegui”.
“Aqui aprendemos a trabalhar em grupo e em projetos, isso é importante, acho eu”, refere a Sara, de 11 anos, e que chegou à Voz há 11 anos para frequentar a creche, tal como o Pedro N. que considera que vai “ser muito difícil mudar” de escola. “Até porque aqui os professores dão-nos muita atenção e ajudam-nos muito. Do que sei, nas outras escolas não é assim”.
“Aqui podemos dar a nossa opinião, nas outras escolas se calhar não”, diz Solange que há 11 anos está n'A Voz do Operário. E o Luís (12 anos) que apenas frequentou n'A Voz o 2. ciclo remata: “nesta escola somos mais livres e podemos pensar”.

“Com o MEM é mais fácil”

Junho. As aulas ainda não terminaram, porém, nos corredores não há correrias, nem algazarra porque os meninos e as meninas foram “acantonar-se”. Os acantonamentos são períodos de três ou mais dias em que alunos, professores e alguns auxiliares se ausentam da escola para um local específico. No entanto, não se pense que os acantonamentos são sinónimo de férias. É certo que há momentos de lazer e diversão, mas também servem para aprender, uma vez que, nas escolas de A Voz do Operário, a aprendizagem não se circunscreve à sala de aula. Esta é, aliás, uma das vertentes do MEM que permite aos alunos novas experiências e novos conhecimentos. Daí que, no regresso dos acantonamentos, sejam realizados trabalhos sobre o que se observou e aprendeu.
“Na Voz do Operário acreditamos num ensino ativo e estimulante, capaz de envolver os alunos nas tarefas e nos processos de construção do conhecimento, suficientemente atrativo para despertar nestes o gosto pelo saber e pelo aprender. Acreditamos que os alunos devem ser ouvidos e devem ser participantes no seu próprio processo de aprendizagem, a escola deve ser, acima de tudo, um local onde as crianças gostam de estar e são felizes”.
“Somos defensores do conceito de Escola Inclusiva, ou seja, a escola que recebe e integra com sucesso todos os meninos, independentemente das suas facilidades ou dificuldades. Nas nossas salas de aula procuramos diariamente que todos os alunos se sintam incluídos e motivados e tenham as condições que precisam, para poder evoluir e progredir nas suas aprendizagens, seja o seu ritmo de evolução mais rápido ou menos rápido que o do resto do grupo. Esperamos o melhor que cada um sabe e pode fazer, tendo as condições necessárias para que, sendo a pessoa que é, possa ser o melhor possível”.
Estes são os princípios pedagógicos que norteiam as escolas de A Voz do Operário, baseados no MEM e nos muitos anos de experiência educativa da Instituição.
Para os alunos, nomeadamente os que conheceram outras práticas pedagógicas, o ensino ministrado n'A Voz facilita a aprendizagem. Ana Carolina, que apenas frequentou o 2.º ciclo, não tem dúvidas em afirmar: “Este método parece-me muito melhor porque podemos dar a nossa opinião”. Já o André considera que “este método é bom e ajuda a ultrapassar as dificuldades”.
O facto de serem desenvolvidas atividades diversificadas é destacado. “Isso permite-nos compreender melhor as matérias”, assinala o Mário, de 12 anos e que apenas frequentou n'A Voz o 2.º ciclo, enquanto que a Carolina (12 anos), que também só frequentou o 2.º ciclo, é da opinião que o método de ensino d'A Voz faz com que “se esteja mais atento”. O Miguel, de 12 anos, veio para A Voz fazer o 5.º e o 6.º ano e reconhece que sentiu “diferença entre esta escola e a anterior. A Voz do Operário é melhor”.
Por sua vez, a Elisabete (14 anos) admite que com o MEM “é mais fácil”. “Estive três anos aqui e esta escola é muito melhor que a anterior. Não há confusão e podemos participar nas aulas, o que para mim foi muito importante”.

“Experiência vai ser útil”

“Nunca conheci outra escola e sei que vai ser tudo diferente, mas a experiência d'A Voz do Operário vai ser muito útil”, diz a Marta, de 11 anos, e que está n'A Voz desde o pré-escolar. Esta é a opinião da generalidade dos alunos que vão para outros estabelecimentos de ensino. Todos têm consciência de que o aqui aprenderam, e não apenas na sala de aula, lhes vai servir no futuro. “Esta experiência foi muito importante. Com o que aprendi n'A Voz vou poder ajudar as outras pessoas”, afirma o André.
A expetativa relativamente ao próximo ano letivo, noutro estabelecimento de ensino, entre os alunos que concluíram o 2.º ciclo é grande, porém, há a convicção geral que os anos passados numa escola de características únicas vão facilitar a integração e a resolução dos problemas e dificuldades que surjam.
“Tudo o que aprendi aqui vai ser muito importante. Se calhar, na outra escola, os professores não explicam tão bem e não haverá tanta amizade... Por isso, a experiência d'A Voz vai ajudar-me”, remata o Miguel.

Tristeza e saudades

Para os alunos que concluíram o 2.º ciclo é hora de dizer adeus à escola de A Voz do Operário. Para uns é mais difícil do que para outros, embora a tristeza seja o denominador comum. Por outro lado, as saudades já se fazem sentir.

“Sinto-me mal porque me vou separar de alguns colegas. Vou ter saudades” - Ana Carolina.
“Sinto-me triste. Há aqui amigos que conheço desde o 1.º ano e que talvez nunca mais veja” - André.
“Vou continuar a ser o mesmo. Claro que vou sentir a falta dos amigos” - Mário.
“Sinto-me muito mal, vou perder os meus melhores amigos, o que é muito mau” - Carolina.
“Estou triste. Conheço pessoas que andam comigo desde a creche e não queria separar-me delas” - Laura
“Sinto-me feliz porque vou para uma escola de que vou gostar e triste porque vou perder alguns dos meus amigos” - Bruno
“Há amigos que já não vou ver mais” - David
“Conheço pessoas desde a creche. Vou ficar triste” - Sara
“Vai ser difícil mudar porque nunca saí daqui” - Pedro N.
“Sinto-me triste e vou sentir muitas saudades desta escola” - Elisabete
“Vou ficar triste” - Pedro A.
“Estou triste” - Marta
“Vou ter saudades” - Miguel
“Sinto-me triste” - Solange
“Vou sentir saudades da escola, mas a maioria dos meus amigos vai para a mesma escola que eu e com os outros posso sempre falar no facebook” - Luís
“Sinto tristeza” - Samuel. Quer dizer mais qualquer coisa, mas a voz fica embargada e o Samuel encolhe os ombros e luta para suster as lágrimas.
Chegou o momento da partida, mas é importante reafirmar: as portas de A Voz do Operário estão sempre abertas. Venham as vezes que quiserem!

Ana Goulart

 

postheadericon “Porque não se diz de Mourinho que é o Mendonça do futebol?”

Entrevista

Há 23 anos que ensaia marchas e já venceu 15 vezes o Concurso das Marchas Populares das Festas de Lisboa. Carlos Mendonça, lisboeta, figurinista e cenógrafo de profissão, é descrito como exigente, o que o próprio confirma. Estudioso da origem e história das marchas populares, regressou há dois anos ao bairro que o viu nascer, o Alto do Pina, e nesses dois anos levou a Marcha do seu bairro ao primeiro lugar do Concurso. Considera que para o sucesso de uma marcha são necessários vários ingredientes, no entanto, também reconhece que a sua formação profissional ajuda muito.

Se calhar é mais fácil colocar a questão desta forma: quando é que ensaiou uma marcha que não ficou nos primeiros lugares do Concurso de Marchas Populares?

Se pensarmos que estive 21 anos em Alfama e que nesses 21 anos tive 13 primeiros lugares... É fazer uma média.

Porque é que ao fim de 21 anos deixou a Marcha de Alfama?

Houve um desentendimento entre mim e um dos dirigentes do clube. Uma diferença de opiniões. Senti que não tinha sido bem tratado, ou pelo menos, não senti que tivesse sido tratado com a deferência que me era devida ao fim de tantos anos de dedicação à Marcha de Alfama e resolvi retirar-me. Aliás, retirava-me de ensaiador de marchas porque estava cansado. Essa era a minha ideia. Só que o Ginásio do Alto do Pina sabedor da minha saída de Alfama, veio “desinquietar-me” para ir tomar conta da Marcha do Alto do Pina em 2011. Disse que não várias vezes até que me convenceram com o argumento de que a minha mãe tinha sido marchante em 1932, quando tinha 16 anos, na primeira marcha de sempre e que o meu avô nessa marcha tinha tocado tuba, era fundador do Clube Musical União que foi quem organizou essa primeira marcha e, sobretudo, que o Ginásio do Alto do Pina completava o seu centenário. Aí pensei que tinha mesmo de fazer qualquer coisa, senti algum saudosismo e fui fazer a marcha que correu bem e ganhou. Este ano repeti.

Em 23 anos como ensaiador de marchas, e não só, já conta com 15 primeiros lugares. Já o consideram o José Mourinho das marchas. Agrada-lhe a comparação?

Já começo a ficar um bocado farto dessa alcunha. Ainda há pouco passei pelo Júlio Isidro, na RDP, que saiu do elevador para me dizer “olá Mourinho, estás bom?”. Para fazer justiça, com o maior respeito e admiração que tenho pelo Mourinho, há que dizer que ele tem apenas cinco campeonatos e eu tenho 15! Se calhar ele é que se devia chamar o Mendonça do futebol. Um dia que o conheça pode ser que lhe diga isso.

Como surgiu o gosto pelas marchas?

Tinha um restaurante em Alfama, no Largo de São Miguel, e que ainda hoje lá está. Um amigo meu, também ex-bailarino, veio convidar-me para fazer os figurinos e desenhar os arcos da Marcha do Bairro Alto, em 1999. Aconteceu uma coisa curiosa. Um dia apareceram-me à porta do restaurante a perguntar-me se eu como comerciante do bairro não queria ajudar a Marcha de Alfama. Disse que tinha graça virem pedir-me dinheiro para a Marcha de Alfama quando era da concorrência, mas contribui. Diverti-me imenso a fazer a Marcha do Bairro Alto. Foi uma marcha complicada em vários aspetos, mas onde criei amizades com os marchantes até porque as coisas estavam a correr muito mal e tive de chamar amigos e amigas para me ajudarem a fazer os arcos. Toda a gente achou que tinha sido um ambiente giro e simpático. No ano seguinte, 1990, a comissão organizadora da Marcha de Alfama vem bater-me à porta do restaurante a desafiar-me para ensaiar a Marcha de Alfama. Aceitei, com as minhas condições que passavam por carta branca para fazer o que me apetecesse. Essa carta branca queria dizer que me responsabilizava, que me obrigava a fazer tudo para a Marcha. E fiz. Fiz os figurinos, os arcos, os adereços, escrevi a letra, mudei o figurino e a ideia geral que havia da Marcha de Alfama que há anos não conseguia um primeiro lugar e logo nesse ano ficámos em primeiro lugar. Só não fiz a música porque tive a colaboração de um homem genial de Alfama que fez uma música que ainda hoje é um ex-libris da Marcha de Alfama. Correu muito bem e depois aplicou-se a velha teoria de que em equipa que ganha não se mexe. Em 1993, voltámos a ganhar e houve um fator impulsionador porque a Marcha foi convidada a ir ao Japão representar Portugal nas comemorações dos 450 anos de amizade Portugal-Japão. E fui ficando...

Qual é o principal ingrediente para o sucesso de uma marcha?

São vários. O aspeto visual é muitíssimo importante e esta é uma área em que me movimento bastante bem porque estudei História da Arte de Trajar, inclusivamente dei aulas, tenho conhecimentos de como se misturam tecidos e cores, o que me ajuda bastante. Mas o aspeto coreográfico também é muito importante e a disciplina de apresentação é igualmente muitíssimo importante. E sobretudo é fundamental que os marchantes acreditem no que estão a fazer e acreditem na sua capacidade de vencer, mesmo que não vençam. É preciso irem para as apresentações determinados e com força. Tenho tido sorte, tanto em Alfama como no Alto do Pina, nos meus marchantes que marcharam sempre dessa maneira, sempre com muita garra e trabalharam muito afincadamente. Sou muito exigente no meu trabalho. Entendo que se dou o máximo não posso esperar que me dêem só metade. Tenho tido sorte.

Quanto tempo leva a preparar uma marcha?

Normalmente saio de um ano para o outro já a pensar no que vou fazer, se é que vou fazer. Ensaios propriamente ditos... Não acredito em prolongar muito o tempo de ensaios porque as pessoas fartam-se de andar a matraquear sempre a mesma coisa, noite após noite. Faço habitualmente cinco a seis semanas de ensaios, das 21,30 às 23,30 horas, cinco dias da semana.

Ao fim destes anos todos ainda fica nervoso quando a Marcha tem de se apresentar ao júri?

Com certeza. Nunca tenho nada por garantido por mais confiança que tenha no meu trabalho e no dos meus marchantes. A apreciação de qualquer painel de jurados é muito subjetiva. Aquilo que eu gosto podem outros não gostar. Num painel de hurados há sempre opiniões diversas de maneira que vou para o Pavilhão Atlântico e depois para a Avenida da Liberdade sempre um bocadinho com o coração na mão e à espera que corra bem.

E como controla o nervosismo? Rói as unhas, masca pastilha elástica...

Não, não. Fico bastante ansioso, mas não passa disso. A primeira vez que entrei no Pavilhão, então Carlos Lopes, à frente da Marcha de Alfama a emoção foi muitíssimo grande. Não tinha experiência nenhuma de nada semelhante, embora tivesse dançado para grandes plateias, não só em Portugal como na Europa. Porém, nunca me tinha apercebido do impacto emocional que é uma multidão a bater com os pés e a gritar “ié, ié, ié, Alfama é que é”. Isso acontece com todos os bairros, mas cravei as unhas nas palmas da mão e as lágrimas encheram-me os olhos porque fiquei emocionadíssimo. Não me custa nada dizer que, este ano, tive alguma dificuldade em descer a Rua Barão de Sabrosa porque me vieram à memória tantas coisas boas do tempo em que vivi no Alto do Pina, veio-me à memória a minha querida mãe e o facto de ter sido marchante e não estar entre nós para ver as glórias que o filho foi capaz de dar ao bairro onde nasceu. Ainda me emociono muito.

Vai continuar no Alto do Pina?

Pelo menos é essa a intenção. Se a saúde me permitir enquanto puder vou continuar nas marchas. De há três anos para cá também faço os desenhos para a Marcha Infantil de A Voz do Operário, o que faço com o maior gosto. Foi o Vítor Agostinho que me desafiou para isso quando fiz uma conferência nos Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa  sobre a origem das marchas, conferência essa que fui depois fazer à Universidade de Los Angeles. Na conversa aberta com o público o Vítor perguntou-me se estaria disposto a desenhar para outras marchas ao que respondi que não, dado que não me parecia honesto concorrer contra mim próprio. Então o Vítor colocou mesmo a questão em relação à Marcha Infantil que é uma marcha extra-concurso e de crianças, pelo que aceitei com o maior prazer.

Esta sua ligação às marchas deriva do facto de ser um profundo conhecedor do que são as marchas populares?

Estudei a fundo tudo quanto há disponível sobre o assunto. Não é muito, mas tive a sorte de ainda conhecer um grande senhor, meu antecessor nas marchas, o senhor Ramalho que foi também um grande ensaiador e que deu prémios a vários bairros. Era um homem muito culto, que fez muita pesquisa e que escreveu uma monografia sobre o historial das marchas, muito bem documentada. Fez o favor de me oferecer um opúsculo desses e fiquei tão entusiasmado com ele que resolvi ir mais longe. Comecei a procurar mais informação e descobri que na realidade há muito pouco. O senhor Ramalho já tinha feito o trabalho quase todo. Tudo o que usei como referência para os meus trabalhos de apresentação foi baseado no trabalho dele, a quem agradeço profundamente. Neste momento estou em discussões com uma editora para publicar um livro sobre os meus 21 anos de Marcha de Alfama. Será um repositório do meu trabalho com figurinos, desenhos de figurinos e de arcos, letras, pautas musicais, algumas histórias e que penso que será publicado muito brevemente.

A origem das marchas não é um tema pacífico.

A origem das marchas é muito polémica. Em 1932, um senhor chamado Campos Henriques que era dono do Parque Mayer resolveu convidar os bairros de Lisboa, na pessoa de coletividades, a organizarem uns ranchos  para se exibirem no Parque Mayer, na noite de Santo António. Penso que a história do pauzinho com o balão já vem de longe. A marcha com o archote é uma coisa que vem de tempos imemoriais. As pessoas celebravam e festejavam com um archote na mão, o que evoluiu mais tarde para o balãozinho. Em 1932, esse convite é feito, mas só três bairros aceitaram: Campo de Ourique, Alto do Pina e Bairro Alto. Talvez importe dizer que esses três bairros totalizavam 400 marchantes e que houve um patrocínio de um ou dois jornais e de algumas empresas. Na altura eram os ranchos e a exibição contou com uma assistência de quatro a cinco mil pessoas, entre as que estavam dentro do Capitólio e as que estavam na rua. Os outros bairros perceberam que tinham perdido o barco, passo a expressão, e exigiram, mais ou menos, que se fizesse outro festival de ranchos em que outros bairros iriam colaborar. Em Outubro de 1932, fez-se outra festa, desta feita com oito bairros. Como os ranchos marchavam pela Avenida da Liberdade acima, os jornais disseram “lá iam as marchas”. Isto foi quanto bastou para que se passassem a chamar marchas. Há ainda o aspeto político-social de as marchas interessarem muito ao Estado Novo. Em 1932 ainda estamos muito próximos da revolução na Rússia, acabou a primeira Guerra Mundial, a Europa está em frangalhos, a guerra civil de Espanha está eminente e o Salazar pensou que se calhar era importante dar festa ao povo para que este ficasse contente.

Pão e circo.

Pão e circo. Então, pela pessoa do Leitão de Barros que era um homem do Estado Novo, mas um grande artista plástico, realizador de cinema, grande homem, independentemente das suas crenças políticas, foi definido quais eram as características de cada bairro. Estas não existiam, ninguém dizia que São Vicente são fidalguinhas, que o Castelo são guerreiros, que Alfama são mulheres de capote e lenço ou marinheiros, que a Madragoa são peixeiros. Ele inventou tudo isso e a iniciativa passou a ser feita entre o Campos Henriques, António Ferro, do Secretriado da Propaganda, e o Leitão de Barros. Foi uma coisa tão importante na época que os melhores artistas e músicos quiseram colaborar. Norberto Araújo, o poeta, Raul Ferrão, enfim, as melhores marchas que ainda hoje os bairros cantam foram escritas nessa época. Gostaria de poder dizer que é uma tradição muito antiga, mas não é. E é uma iniciativa criada a partir de uma necessidade político-social de propaganda do Estado Novo.

Ana Goulart

 
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