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postheadericon O amor em tempo de brincadeira

Jornal - Voz

O mundo inteiro quer descobrir o amor e «persegue» o ideal de amor pleno entre duas pessoas, e as crianças não são excepção, ou antes reflectem essa mesma realidade.
 Desde que se nasce, estamos expostos a estímulos sociais profundos que visam levar-nos a interiorizar os principios da cultura da sociedade a que pertencemos, orientando-nos para que mais tarde possamos vir a assumir um papel adulto adaptado dentro da mesma. Como tal, e de modo inconsciente, os adultos passam às crianças com quem convivem aquilo que esperam que, mais tarde, elas possam vir a fazer ou a ser no futuro. As brincadeiras infantis, que têm uma importância crucial para o desenvolvimento global da criança, são um «treino» e, ao mesmo tempo, uma «descoberta» daquilo que se é e, tão ou mais importante, do que se quer vir a ser.
 Os «namoros», que começam cada vez mais cedo na idade cronológica da criança, reflectem isto mesmo, constituindo uma «preparação» para o amor e para as relações amorosas adultas. São inculcados socialmente, como a grande maioria das brincadeiras infantis, e desempenham um papel importante no desenvolvimento sócio-afectivo das crianças.
 Mas as crianças não inventam o amor: na realidade, limitam-se a replicá-lo nas suas brincadeiras, copiando aquilo que vêem acontecer um pouco por todo o lado. De facto, e aos olhos de uma criança, o mundo está cheio de amor. Vê-se o amor na televisão, no cinema, nos livros e nas histórias que lhes são lidas ou contadas. Vê-se o amor na rua, nos parques e/ou em casa, de cada vez que se encontra um casal de pessoas apaixonadas e que vivem essa paixão. Vê-se o amor quando os adultos lhes perguntam se têm namorado/a, muitas vezes mesmo antes de conseguirem ler, escrever e contar.
 Naturalmente, as crianças querem aceder a este estado supremo de felicidade que parece ser o ser-se namorado de alguém e, no seu dia-a-dia e nas suas brincadeiras, fazem-no, reproduzindo o que vêem acontecer à sua volta. Os namoros infantis são, portanto, um reflexo da realidade social em que acontecem, embora tenham também características muito próprias, que se ligam à idade e fase de desenvolvimento dos seus intervenientes.

A pré-história dos namoros


“Quando se tem namorada, dá-se beijinhos, carinhos, abraça-se e ajuda-se se ela estiver em perigo.”
Diogo, 10 anos
“Eu sei se gosto de um rapaz primeiro se o achar bonito. Depois vejo a atitude dele; se for muito convencido, não gosto. Se for muito carinhoso, também não gosto. Mas se for normal, como eu, gosto.”
Bia, 9 anos

 Actualmente, namora-se durante praticamente toda a infância. Curiosamente, as crianças tendem a utilizar expressões adultas para ilustrar e descrever os seus «amores», o que acontece de forma mais frequente à medida que a idade das crianças avança. Assim, é usual ouvir as crianças mais velhas usar termos e expressões como «amo-te muito», «não posso viver sem ti» ou «és tudo para mim», entre muitas outras, embora o façam sem consciência plena do significado do que estão a dizer. De facto, estão apenas a reproduzir o que vêem e o que ouvem e a tentar assim aproximar-se do mundo dos adultos. No entanto, na prática, os namoros infantis revelam-se bastante diferentes do namoro adulto, variando muito também consoante a idade das crianças.
 Assim, durante a idade pré-escolar o namoro não parece ter ainda carácter exclusivo. Cada menino ou menina pode ter vários namorados(as) e é comum que as amigas gostem do mesmo menino, por exemplo, sugerindo que o gostar da mesma pessoa parece ser uma forma de partilha que faz parte da amizade nestas idades. Ao mesmo tempo, namorar com alguém significa essencialmente que se tem um amigo preferido do outro sexo porque as brincadeiras e as cumplicidades fazem-se ainda muito segundo uma lógica de género. No geral, meninos gostam de brincar com meninos e meninas gostam de brincar com meninas, o que ainda irá prevalecer durante mais alguns anos.
 Durante o 1º Ciclo, os namoros adquirem um novo significado, surgindo a exclusividade. Meninos e meninas deixam de querer partilhar o/a namorado/a ou a pessoa de quem gostam, surgindo até muitos conflitos a tal associados. Paradoxalmente, verifica-se que normalmente os mesmos meninos são pretendidos pela generalidade do grupo, o que aumenta a conflitualidade. A popularidade de rapazes e raparigas mede-se também pelas propostas de «namoro» que recebem. Escrevem-se cartas, entregam-se pequenos presentes, fazem-se desenhos, replicam-se «casamentos» fictícios no recreio das escolas, entre outras manifestações amorosas. No entanto, e no dia-a-dia, verifica-se que os meninos continuam a brincar e a passar mais tempo com os seus amigos meninos e as meninas com as suas amigas meninas, tenham ou não tenham namorado/a. Dir-se-ia que as grandes diferenças relativamente aos namoros da idade pré-escolar são a exclusividade e o facto dos meninos que se escolhem para namorar deixarem de tender a ser aqueles com quem se gosta mais de brincar para passarem a ser aqueles que têm qualidades físicas e pessoais mais próximas dos ideais sociais e do que é valorizado pelo grupo.
 No 2º Ciclo dá-se o «boom» dos namoros infantis. Quase todos os meninos e meninas querem ter namorado(a) até porque isso significa fazer parte do grupo. Os amores mudam a grande velocidade e acontecem sobretudo através de sms, messenger e facebooks, ferramentas informáticas ideais para quem atravessa a idade das inseguranças. Surgem os primeiros beijos, ainda muito marcados pela inocência e distantes do envolvimento físico e emocional dos beijos adolescentes. A verbalização que é feita dos amores e dos namoros tem uma conotação muito «televisiva», replicando o que é visionado nas telenovelas e filmes favoritos. Apesar disso, e de alguma intensidade dramática envolvida em alguns finais de namoro, continua a verificar-se que os namorados passam muito pouco tempo juntos e limitam-se quase só a observar-se à distância e a passear de mãos dadas ocasionalmente.
 Curiosamente, quase todos os adolescentes que nunca tiveram um namoro sério utilizam as experiências da infância quando são interpelados sobre se já namoraram ou não. Contudo, deixam de o fazer assim que têm uma experiência de namoro enquanto adolescentes, referindo-se a esse amor como o primeiro, o que significa que implicitamente reconhecem que as experiências anteriores tinham um papel e um peso totalmente diferentes do que entretanto passaram a considerar ser um namoro. E, de facto, assim é.
 Em suma, namorar durante a infância é bom e saudável. Permite treinar diferentes papéis sociais e, através das experiências que se vão tendo, retirar ensinamentos e ideias cuja veracidade ou sentido o futuro se encarregará de confirmar ou desmentir.

“As mulheres são muito complicadas. Nós perguntamos se querem namorar connosco e elas dizem sempre 'Não' ou 'Vou pensar'.”
Diogo, 10 ano