Jornal "A Voz do Operário"
O que faz as crianças sentirem-se gostadas?
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O amor é uma arte dificil de aprender e que não se tem por hábito ensinar.
No entanto, estar seguro dos afectos dos outros e saber transmitir com segurança os nossos afectos àqueles que estão à nossa volta e têm importância para nós é uma das competências fundamentais que a infância e a adolescência devem desenvolver, pelo significado que assumem durante toda a vida adulta e em todas as áreas importantes da existência humana.
Efectivamente, a maioria dos pais está desperto para a importância dos seus filhos desenvolverem uma boa auto-estima, assim como em garantir que crescem seguros de si e confiantes nos outros e neles próprios. No entanto, em muitas situações sentem dúvidas e interrogações sobre aquilo que faz efectivamente as crianças sentirem-se seguras de si e gostadas pelos outros à sua volta, assim como sobre a actuação e os procedimentos ideais para desenvolver estas noções nos filhos.
Acima de tudo, a segurança nasce da consciência dos afectos – dos outros na criança e dos da criança nos outros à sua volta. Ao mesmo tempo, a maioria das crianças e dos adolescentes precisam que as suas figuras de referência – os pais, os avós, os professores, os amigos, etc – espelhem coisas positivas de si mesmo. Ou seja, precisam de sentir as suas competências e as suas realizações valorizadas, precisam do orgulho e do reconhecimento dos outros e de sentir que estão à altura das expectativas que foram depositadas neles. Efectivamente, e em linhas gerais, precisam de saber que as pessoas gostam deles como eles são e por aquilo que eles são e que, independentemente do que possa acontecer, os laços e os afectos das pessoas significativas jamais se poderão perder porque são indestrutíveis.
Ao longo do crescimento, existem muitos momentos singulares em que os pais e demais educadores podem trabalhar a segurança e a auto-estima dos filhos, o que aliás muitas famílias fazem: elogiar a criança sempre que é caso disso, fazer críticas positivas e construtivas, repreender sem humilhar nem inferiorizar a criança, estimular a ultrapassar as suas dificuldades e as suas fraquezas, realçar os seus pontos fortes e as suas qualidades, evitar comparações prejudiciais para a criança, etc. Ao mesmo tempo, existem outros momentos de maior subtileza em que a segurança e a auto-estima também se constroem. Crescer é um desafio permanente e as crianças beneficiam muito quando os pais [e outras figuras de referência] lhes transmitem confiança e os estimulam a lidar com o crescimento e as novidades e os desafios que lhe estão inerentes de modo positivo.
Ao mesmo tempo, crescer é também aprender a lidar com os próprios medos, reais e imaginários, sendo que é a segurança transmitida pelos pais que estimula a criança nesse processo. Curiosamente, as crianças identificam facilmente o amor e o afecto como aquilo que efectivamente combate o medo, o que efectivamente é verdade.
O que devem fazer os adultos quando as crianças estão com medo?
“Abraçar-nos.”
Alfredo Platas, 10 anos
“Dar amor e carinho e dizer que não está lá nada, que é só imaginação.”
Beatriz Camarão, 10 anos
“Dar carinho e uma guloseima.”
António B. Gomes, 9 anos
“Dar beijinhos.”
David Silva, 11 anos
Em suma, crianças seguras e felizes são crianças amadas e que se sentem reconhecidas e valorizadas pelas pessoas importantes das suas vidas, independentemente das suas competências ou das suas dificuldades. São crianças em quem os outros confiaram o suficiente, durante os momentos-chave do crescimento, para que elas próprias adquirissem confiança em si mesmas. E são crianças que se sentem bem consigo próprias e que sentem estar à altura das expectativas dos outros, talvez porque estas são ajustadas à sua realidade e respeitam a sua essência e a sua individualidade, enquanto crianças e enquanto pessoas.
Naturalmente que, por vezes, tudo isto, ou grande parte disto, existe na vida da criança e esta manifesta igualmente inseguranças. Como é evidente, existem circunstâncias, contigências e vivências específicas que condicionam as crianças e os seus processos de crescimento e de construção da personalidade e dos afectos, pelo que os casos individuais têm que ser analisados de forma individual.
No entanto, e esta é uma análise geral e que se aplica à generalidade das pessoas, essas crianças, como todas aquelas que, de alguma forma, são desafiantes para os adultos à sua volta, precisam essencialmente da mesma coisa, cada dia e todos os dias: ser compreendidas.
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