Há muitos anos, ainda nos anos 60, havia um cartoonista (salvo erro de nome Miranda) que publicava regularmente no Jornal de Notícias.
Uma das suas obras ficou-me na memória pela acutilância com que retratava o papel que à comunicação social estava reservado nessa época.
Numa primeira imagem mostrava um homem a ser preso quando escrevia numa parede: BIBA A LIVERDADE. Na segunda imagem via-se um rádio que emitia o som de uma voz dizendo: …foi ontem detido quando trocava os Bês pelos Vês…
Vem isto a propósito de dois mail que recebi no passado dia 23 de Abril, por casualidade, sequencialmente.
O primeiro continha um comunicado do Sindicato dos Trabalhadores do Sector Ferroviário, cujo título dizia: REFER substitui negociação por repressão – Polícia carrega sobre dirigentes e delegados sindicais.
No texto referia que quando se encontravam no átrio das instalações da empresa (da qual são trabalhadores) com o objectivo de entregarem à Administração um documento com propostas visando solucionar alguns problemas que impedem que se chegue a um acordo, em vez de serem recebidos para fazerem a entrega foram expulsos do referido átrio pela polícia, chamada pela Presidente da REFER.
Abri o mail seguinte e deparo com uma notícia de um jornal onde figurava o seguinte título: Protestos na REFER. Sindicalistas invadem Administração.
Imediatamente me surgiu a memória do cartoon dos anos 60!
Estava sem dúvida perante um caso de flagrante troca de bês pelos vês.
Claro que no texto da notícia ficava claro que ninguém tinha passado do átrio, pelo que era falso ter havido uma invasão das instalações da Administração. Porém, todos sabemos que a maior parte dos leitores se fica pelos títulos, salvo nas notícias que despertem maior atenção.
Qualquer cidadão que vá tratar de qualquer assunto a determinado edifício onde funcionem serviços (quer públicos, quer privados) entra para o átrio e dirige-se à recepção. Seguindo a lógica do título será que diariamente milhares de pessoas invadem milhares de instalações por esse país fora?
Sinais do tempo em que os direitos e as liberdades estão diariamente sob ameaça, exigindo determinação e por vezes coragem na sua defesa, e a comunicação dominante, ou seja, a comunicação dominadas pelos mesmos interesses económicos que afrontam os que nada mais têm que a sua força de trabalho, manipulam as realidades visando que a opinião pública seja o resultado daquilo que publicam.
Acontece porém, que tal como a prática dos anos 60 não evitou que tivesse existido o 25 de Abril, também agora não evitam que o descontentamento desça à rua a reclamar justiça.
Por muito que façam há sempre muita gente disposta a trocar os “Bês” pelos “Vês”.