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Início - Jornal "A Voz do Operário" - Entrevista - "Toda a escrita é difícil, toda a escrita é complicada"

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Jornal - Entrevista

Há três décadas que escreve livros para todos os públicos, uns em prosa outros em poesia, no entanto, quando começou a escrever não tencionava ser escritora. Alice Vieira tem mais de 70 obras publicadas e continua a escrever. Por duas vezes foi candidata ao prémio Hans Christian Andersen, prémio que distingue os melhores autores na categoria de literatura infanto-juvenil. Uma vida de escritas que começou no jornalismo - actividade que ainda mantém - e progrediu para a literatura.

Celebra este ano três décadas de carreira literária. Começou a escrever livros por acaso. Pensava chegar até aqui?

Não, eu nem pensava ser escritora. Já tinha uns quatro ou cinco livros publicados e ainda dizia que “a minha não é isto, trabalho tenho eu que chegue no jornal”. Nunca pensei ter duas profissões, a de jornalista e a de escritora. Mas depois as coisas foram sucedendo e acabei a gostar de ambas. É completamente diferente a escrita de ficção e a de jornal. Porém, é uma grande admiração para mim ter chegado até aqui. Até porque aquela carga que tem o facto de serem 30 anos, que é muito tempo, eu não a sinto, acho que tudo começou ontem. O livro que escrevi há 30 anos continua a ser lido, neste espaço de tempo não houve interrupção da sua publicação e, talvez por isso, parece que o escrevi agora.

O primeiro que foi o “Rosa, minha irmã Rosa”. Surgiu como uma história para seus os filhos.

Os meus filhos como todos os filhos de jornalistas – então os que têm mãe e pai jornalista como era o caso – queixavam-se de que nunca estava em casa, de que não escrevia nada para eles e portanto a história foi feita para ver se eles se calavam. Ao fim da tarde sentávamo-nos e falávamos sobre o que cada um tinha feito durante o dia. Eu estava de férias e foi por isso que consegui escrever a história que nasce das nossas histórias. Os meus filhos levaram a história para a escola, os colegas gostaram muito e eu pensei que a minha carreira tinha começado e acabado ali. O mal foi eu ter visto no jornal que nesse ano, que era o Ano Internacional da Criança, havia uma editora que estava a iniciar-se, a Caminho, e que organizava um concurso para o melhor texto para crianças e jovens. Lembrei-me da história, enviei-a para o concurso e ganhei o prémio. O livro foi logo publicado, vendeu-se muito bem e o editor pediu-me para escrever outro e mais outro e até hoje.

Foi fácil conciliar o jornalismo e a escrita literária?

Não, foi muito complicado. Foi muito complicado conciliar o jornalismo, a escrita e a família e consegui fazer tudo isso porque os miúdos já não eram tão crianças quanto isso, andariam nos dez anos, porque o pai estava muito mais tempo em casa do que eu. Mas não foi fácil. Não era só o trabalho de escrever os livros e o jornalismo, era também a ida a escolas que aconteceu logo a seguir à publicação do primeiro livro. Hoje é uma coisa normalíssima, mas naquela altura não o era. Há 30 anos, começou-se a levar os escritores às escolas e eu tive logo muitos pedidos de escolas. Durante muitos anos, as folgas do jornal utilizáva-as para ir às escolas.

Mas valeu a pena?

Sem dúvida. E nessa altura dizia que trabalhava muito e hoje trabalho muito mais, mas muito mais. Basta dizer que tenho cinco patrões, o que não é fácil. Com a compra de editoras por parte da Leya, hoje trabalho para cinco editoras, embora seja daquelas pessoas que trabalha melhor sob grande pressão. Se tenho muito coisa para fazer ao mesmo tempo, despacho tudo. Este ritmo de trabalho, que é mau e dá cabo de mim, é a única maneira que arranjo de poder ir às escolas, de escrever os livros e para o jornal e as duas revistas, de poder fazer as coisas que tenho de fazer.

Quantos livros já publicou?

Mais de 70. Quando trabalhava só para a Caminho tinha tudo contado, mas agora com a Caminho, a Texto Editora, a Oficina do Livro, a Casa das Letras e a D. Quixote é tudo muito mais complicado.

Nem tudo é literatura juvenil...

Não, não. É literatura juvenil, infantil, para adultos, para toda a gente.

Mas preferencialmente, o seu público alvo são os jovens?

Não sei se é preferencialmente. É quem me lê mais e isso são os jovens e os adultos. De qualquer maneira, este ano, trabalhei mais para crianças porque a Texto encomendou-me uma série de livros para os mais pequeninos. É algo que gosto de fazer, mas não é o que mais gosto de fazer e dá-me o dobro do trabalho. Também trabalhei para adultos. Na Oficina do Livro temos um projecto de romance colectivo em que somos seis autores a escrevê-lo e publiquei dois livros de poesia na Caminho. Os jovens ficaram assim um bocadinho para trás. O último livro que lhes era destinado publiquei-o há cerca de um ano, por isso quero ver se em Agosto acabo um romance para a Caminho.

Quanto tempo leva a escrever um livro?

O tempo que me dão. Se o patrão quiser o livro para amanhã é para amanhã, se quiser para daqui a dois meses é para daqui a dois meses. Eu escrevo para o tempo que tenho para escrever. Daí que este livro que tenho de acabar para a Caminho leve mais tempo que outros. É um livro que ninguém me pediu, eu é que decidi escrevê-lo e tem sido interrompido por outros que me têm pedido. Se não tenho prazo dado por ninguém, em dois meses consigo escrever um romance juvenil, se não tiver mais nada para fazer.

É fácil escrever para um público jovem? Há a ideia de que é um público exigente.

Eu penso que nós escritores é que devemos ser exigentes. Eu sou extremamente exigente naquilo que faço, tanto assim que já me aconteceu deitar fora um livro já pronto. No que toca à dificuldade penso que toda a escrita é difícil, toda a escrita é complicada, portanto não faço a distinção entre fácil e difícil. É sempre difícil.

Diz-se que os jovens lêem pouco. Quer comentar?

Não é verdade. Só diz isso quem não está perto deles e quem não contacta com eles. Quem não lê nada são os adultos. Os jovens nunca lêem tanto quanto nós gostaríamos, mas lêem mais do que o que nós dizemos. Basta ver o que aconteceu com o Harry Potter e basta ver que todas as editoras querem ter sempre uma linha de romance juvenil porque se vende.

Já recebeu vários prémios e foi duas vezes candidata ao prémio Hans Christian Andersen.

Isso dá-me um certo prazer. Na segunda vez fui até à finalíssima que disputei com um escritor israelita que conquistou o prémio e ainda bem porque gosto muito dele. Mas também não faço nada, nem escrevo nada a pensar em prémios.

Mas dava-lhe algum prazer receber o prémio Hans Christian Andersen?

Isso dava, assim como o ALMA, prémio instituído em memória de Astrid Lindgren, grande escritora sueca, e que foi instituído em 2000, ano da sua morte. É um prémio de grande prestígio.

Realtivamente à divulgação da escrita, de um modo geral, o que é que falta?

A divulgação dos livros é muito pouca. Pega-se num jornal e a divulgação é mínima e então de literatura infantil e juvenil... Há uma coisa curiosa que não deixa de ser estranhíssima. Há uma revista especializada em livros em que a apreciação dos livros de literatura infantil é feita por uma uma psicóloga. Acho estranho. Crítica de livros infantis e juvenis é algo muito raro; quanto muito meia dúzia de linhas a anunciar a publicação de um livro. Na televisão há uns programas a horas terríveis, mas mesmo assim demonstram ter alguma força. Eu estava na Feira do Livro do Porto e apareceram muitas pessoas a comprar o meu último livro de poesia. Perguntei como tinham tido conhecimento dele e responderam que tinham ouvido na televisão Vasco Graça Moura dizer muito bem dele. Vasco Graça Moura falou do meu livro, durante alguns segundos, num programa da RTP 2 às tantas da manhã e mesmo isso levou as pessoas a comprarem o meu livro. Agora veja-se o que não seria um programa de divulgação, em horário nobre. A divulgação é muito fraca e depois há outra coisa que toda a gente sabe que é o curto período de vida que um livro tem numa livraria. Se for um livro de um autor que se vende e que seja conhecido, o livro está exposto duas semanas, caso contrário, aparece num dia e no outro já lá não está.

Tem várias obras traduzidas. Há alguma ideia de qual a aceitação pelo público estrangeiro dos seus livros?

Ter um livro traduzido não custa muito. Tenho muitos livros traduzidos em muitas línguas, mas aquilo que para mim é importante não é ter o livro traduzido – embora isso também seja importante -, é ter o livro reeditado. Tenho inclusive um livro traduzido em chinês e isso quer dizer que os meninos chineses me conhecem? Não, como é lógico. Assim que a “Rosa, minha irmã Rosa” saiu tive logo uma edição em checo, mas isso não significa que os jovens checos me conheçam. Aquilo que representa qualquer coisa é quando um livro é reeditado. Isso acontece-me nalguns países como a Alemanha, França, Espanha.

Como é que surge a poesia?

Eu sempre escrevi muita poesia, mas sou muito crítica em relação à poesia. Já o sou em relação à prosa, quanto mais à poesia. Porque nós somos um País de grandes poetas e também de muitos, muitos, muitos maus poetas. Por isso, sempre fugi de editar poesia. Como é que me decidi? Pela única maneira que me pareceu normal que foi juntar alguns poemas que tinha escrito e enviá-los para um concurso a que concorri sob pseudónimo. Antes de enviar os poemas também tive o cuidado de saber quem eram os membros do júri e esses davam-me muitas garantias porque era gente como Fernando Pinto do Amaral, Fernando Martins, pessoas que sabem muito bem o que é poesia. Enviei os poemas e ganhei o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, há dois anos. Na altura ficou tudo muito espantado por ser eu a autora. Mas escrevo muita poesia e publico muito pouco.

Há muita coisa que fica no fundo da gaveta?

Sim... Depois há coisas que eu gosto, porém, ainda não quero publicar. Acresce que é uma escrita completamente diferente. Mesmo o processo de criação. Desde que me lembro de mim que escrevo tudo à máquina, agora ao computador, no entanto, a poesia escrevo com caneta num caderno e emendo e rasgo e deito fora. Não sou capaz de escrever poesia directamente no computador. Não faço ideia do porquê, talvez porque o processo de criação seja outro. Mas tem mais. Eu não acredito em inspiração para fazer prosa, no entanto, na poesia – não lhe chamo inspiração porque não gosto do termo – é diferente, há uma determinada sensação, qualquer predisposição que me faz escrever poesia.

Há algum projecto na forja?

Com cinco patrões têm de estar. Estão dois romances para a Caminho, um livro  para a Oficina do Livro, outro para a Texto Editora e tenho dois entregues que penso estarão à venda lá para Outubro. Um é da Oficina do Livro e chama-se “Contos de Grimm para Meninos Valentes” e são seis contos dos irmãos Grimm dos menos conhecidos e dos mais violentos, daí o nome do livro. O outro é da Texto, é um livro para os mais pequeninos que se chama “Rimas Perfeitas, Imperfeitas e Mais que Perfeitas” que conta com vários poemas e cada um respeita a um tempo verbal e que me deu imenso trabalho.