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Início - Jornal "A Voz do Operário" - Entrevista - "Jovens problemáticos têm falta de oportunidades"

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Jornal - Entrevista

Chegou a Portugal há oito anos. Veio ter com a mãe que já aqui se encontrava a trabalhar e veio “obrigado”. Preferia ter ficado na sua terra natal, a Ucrânia. Do que o rodeava nasceu a vontade de fazer “alguma coisa” e, assim, aos 18 anos, decidiu eleborar um projecto dirigido aos jovens dos bairros sociais - “dar-lhes algo que os fizesse sair para fora da sua realidade e acreditar que era possível mudar de vida”. A pouca idade fez com que os apoios ao projecto que desenvolveu não chegassem, mas Serhiy Adamov não desistiu e continuou a bater a portas. Gostava de criar uma rede de associações que levassem por diante o “Mudar a história” porque acredita que o que faz falta aos jovens ditos “problemáticos” é apenas uma oportunidade.

O que é o projecto “Vamos mudar a história”?

É um projecto que surgiu quando morava na linha de Sintra. Viajava de comboio e via muitos jovens sem nada que fazer. Depois ouvia as notícias de arrastões na Linha de Sintra, muitos roubos. Muitas notícias negativas sobre os jovens e muitos problemas. Na altura, estava a concluir o secundário e dei por mim a imaginar-me no lugar de alguns dos meus colegas que eram culpados de coisas em que, entendo eu, não o eram tanto. A sociedade coloca-lhes o rótulo de problemático, mau estudante, que não faz nada. Um dia pensei qual seria a causa daqueles comportamentos que levavam ao rótulo. Pensei que descobrindo a causa seria mais fácil encontrar uma solução. Um jovem imigrante que chega a Portugal e não está legalizado, não tem documentação – nunca foi o meu caso – vê-se numa situação muito difícil. Conheci muitos jovens africanos que os pais não estavam legalizados e por isso aceitavam ordenados mais baixos e trabalhar mais horas. Os filhos quase não vêem os pais e ficam entregues a si próprios. Se vivesse na situação destes jovens penso que não seria capaz de chegar a casa e estudar. Uma pessoa que chega a casa e não vê ninguém, o que lhe apetece é não fazer nada. A pessoa não se sente apoiada.

Esses jovens sentem-se da forma que os descreve?

Esses jovens vivem, na sua maioria, em bairros sociais. Nunca vivi num bairro social, mas conheço muita gente que vive. Gente que traficou droga, que roubou, que era apelidada de “pessoa má”. São “más” porque apenas conhecem a realidade do bairro onde vivem. É por não conhecerem mais nada que agarram qualquer oportunidade fácil que lhes surja. Roubar era uma dessas oportunidades.

Faltam outras oportunidades a esses jovens?

Sim. Eles podem escolher, mas falta-lhes oportunidades. É como se não tivessem direito de optar. Sou um bocadinho antiquado nas ideias e nos valores, se calhar por ter nascido num país diferente onde não há tanta liberdade, emcetros aspectos, como em Portugal, tenho uma visão diferente das coisas. Por exemplo, considero que a educação começou a perder-se em casa, os valores deixaram por isso de ser transmitidos. Os pais trabalham mais horas e os filhos ficam mais tempo sozinhos e mais tempo nas escolas. Quando cheguei a Portugal fiquei surpeendido. Ficava todos os dias na escola desde as 8 horas até às 18 horas. Não tive facilidade em aceitar isso porque estava habituado a estar na escola de manhã ou de tarde, nunca o dia inteiro fechado em salas de aula. Penso que isto acontece exacatamente para que os filhos não fiquem sozinhos enquanto so pais trabalham. Depois os pais esperam que a escola eduque os seus filhos, lhes transmita valores. A escola ensina muita coisa, mas a sua vocação não é educar. Isso tem de ser feito em casa, na família.

Mas como é que este estado de coisas deu origem ao projecto “Mudar a história”?

Estava no curso de desporto e li imenso acerca das suas potencialidades, como o poder do desporto na vida dos jovens. Pratiquei desporto e vi o que isso pode mudar na vida dos jovens. Os jovens dos bairros sociais vivem como que fechados numa caixa. Se tiverem uma oportunidade de ver que o seu mundo não é apenas a caixa onde vivem, vão à procura de coisas novas.

E como é que o projecto que desenvolveu pode fazer os jovens saírem dessa “caixa”?

Apeteceu-me ajudar esses jovens. Quero dar-lhes uma oportunidade de verem os seus sonhos realizados. Por isso comecei a escrever o projecto porque para falar com estes jovens era necessário ter algo para lhes mostrar e depois comecei a falar com as pessoas.

Numa entrevista recente dizia que “a roda já está montada só falta pô-la a girar”. O que é necessário para pôr a roda a girar?

Há muitos mecanismos, a nível nacional. As câmaras municipais têm verbas destinadas a estes projectos e a própria União Europeia – embora seja muito crítico em relação a esta – penso que também poderá ajudar. O “Vamos mudar a história” é um objectivo e estes têm muitas estratégias. Uma delas é a escola de boxe porque ao contrário do que se pensa não é uma modalidade violenta. Por outro lado, o desporto tem uma parte educativa. O balneário é muito importante, assim como, a relação do atleta com o treinador. Este é como que uma espécie de pai que ensina valores e comportamentos e prova ao atleta que confia nele. Ora isto de confiar é algo que os jovens não ouvem muitas vezes, antes pelo contrário, o que lhes dizem é “não sabes fazer nada”, “não vales nada”.

O projecto tem apenas uma componente desportiva? Há quem não goste de praticar desporto.

Não. Pode haver uma escola de informática, pode haver muitas outras coisas. O importante é que os jovens sintam que são úteis, que fazem a diferença. Porque as pessoas podem mudar. É necessário dar-lhes o benefício da dúvida. Não se pode é fazer como faz o Governo que vê estes bairros e estes jovens como um cancro, até mesmo os pais deles. Até porque Portugal não é um país racista, é até um país bastante acolhedor que trata bem os imigrantes.

Mas é preciso fazer um pouco mais. É isso?

A roda está criada. É só preciso vontade para a pôr a funcionar.

Já há alguma actividade a desenvolver-se?

Comecei a escrever o projecto com 18 anos e nessa altura tive as primeiras reuniões para concretizar o projecto. Embora só tivesse 18 anos não tinha nenhuma dúvida da capacidade de concretização do projecto, porém, as outras pessoas olhavam para a minha idade. A primeira reunião foi com a Câmara Muncipal da Amadora e correu muito bem, só que no final perguntaram-me quantos anos tinha. Senti isso como uma barreira muito forte porque falta de experiência aceito, mas falta de vontade não. Depois tenho uma série de pessoas com quem já trabalhei e que sei que posso contar para o projecto e essas têm experiência. Por outro lado, é muito difícil concretizar o projecto sem os apoios que referi. É muito complicado fundar uma associação, uma instituição particular de solidariedade social, e se criar uma empresa não há quem apoie. “Vamos mudar a história” é um projecto e precisa de parceiros para ser concretizado. Não precisa de ser executado todo nas mesmas instalações e tem diversas áreas de intervenção. Há muita coisa que pode ser feita só é preciso haver vontade.

Teve alguma experiência semelhante na sua terra natal, a Ucrânia?

Todas as cidades da Ucrânia têm como que uma espécie de Palácio da Juventude. Eu praticamente cresci num deles porque a minha mãe que foi actriz quando acabou a sua carreira foi dar aulas para o Palácio da Juventude. São edifícios grandes onde se aprende teatro, arte, música, ginástica. Posso dizer que há muitas coisas da Ucrânia que gostava de trazer para cá e esta era uma delas. Mas não tive nenhuma experiência semelhante ao “Vamos mudar a história” na Ucrânia. Mas conheci pessoas que sei que poderiam colaborar no projecto.

Contactou com câmaras municipais e outras entidades. Qual tem sido a receptividade ao “Vamos mudar a história”?

A receptividade é boa. Querem apoiar e presumo que não têm alternativa porque alguém que quer resolver um problema, penso eu, é sempre bem vindo. Mas há tanta burocracia. É necessário um espaço, é necessário que alguém avance. Depois é preciso dinheiro. As coisas com a Federação de Boxe estavam a avançar mas eu tinha de fazer investimentos para trazer um treinador internacional para Portugal. Era impossível.

Quer isso dizer que o projecto continua sem apoios?

Pensei que seria mais fácil. Este projecto procura fazer a diferença. Não tenho medo de arriscar. E por algum lado se tem de começar.

E como é que o projecto vai chegar aos jovens “problemáticos”?

A escola de boxe é um meio. Vai reunir jovens que queiram aprender este desporto. Podiam ser formados atletas e também árbitros. Creio que os jovens aderem a esta ideia. Muitas associações têm o memso objectivo que o “Vamos mudar a história”, então porque não partilhar esse mesmo objectivo?

Podia ser criada uma rede de parcerias, é isso?

Sim. Uma rede com parceiros em que cada um colocasse ao dispor do objectivo comum aquilo que possui. Fazer um trabalho conjunto para desenvolver o projecto.

Também é um imigrante e como tal a adaptação em Portugal deve ter sido difícil. Sendo um jovem alguma vez se sentiu tentado a seguir o mesmo caminho que os jovens que tenta ajudar?

Não. Não faz parte dos meus objectivos e por outro lado não sou influenciável. Basta dizer que nunca fumei e não quero fumar, não bebo porque não suporto álcool. Como jovem não preciso de nada disso para me divertir. E consigo estar com eles sem fazer o que eles fazem, pelo contrário, tento é convencê-los a não fazerem.

Foi fácil aprender a falar português?

Joguei muito tempo basquetebol e, foi através deste, que comecei a relacionar-me e a falar com os meus colegas. Não tenho dificuldade em expressar-me, nem em comunicar. Jogava basquetebol e, aos poucos, comecei a falar português. É por isso que acredito que o desporto pode ajudar não só à integração, como a resolver muitos problemas que, hoje em dia, se colocam aos jovens.