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Início - Jornal "A Voz do Operário" - Internacional - A estratégia da limpeza étnica

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postheadericon A estratégia da limpeza étnica

Jornal - Internacional

A guerra contra a Faixa de Gaza conduzida pelo Exército de Israel entre 27 de Dezembro de 2008 e 20 de Janeiro de 2009 provocou 1315 mortos entre a população do território, 413 dos quais são crianças (cerca de um terço) e 104 são mulheres.
Perante esta catástrofe humanitária, que não teve qualquer impacte na solução do problema israelo-palestiniano a não ser a chacina de seres humanos e a destruição acrescida de estruturas já altamente degradadas ao longo de décadas de ocupação militar, multiplicam-se as teses segundo as quais estamos perante um genocídio. Ou seja, está em curso uma operação de limpeza étnica concretizada através da liquidação metódica e paulatina de um povo ou, no mínimo, da criação de condições para que dezenas de milhar de pessoas se vejam obrigadas a refugiar-se noutras terras.
Os governantes de Israel dizem que atingiram os objectivos que pretendiam ao lançar esta guerra e, no que pretendem apresentar como um gesto de boa vontade dedicado à posse do novo presidente norte-americano, tiveram o gesto “nobre” de retirar as tropas que invadiram a Faixa de Gaza. É fácil afirmar que os objectivos foram alcançados quando nunca os revelaram publicamente e os jornalistas foram mantidos (alguns por vontade própria, é certo, como alguns enviados e residentes usados na comunicação social portuguesa) fora do campo de batalha, à mercê das operações de propaganda dos altos comandos israelitas.
Por tudo isto, também é fácil – e lógico – ao movimento palestiniano Hamas proclamar que venceu as tropas invasoras uma vez que elas se retiraram e a situação de impasse do problema se manteve.
O problema é, de facto, o mesmo há 60 anos: o povo palestiniano, em grande parte expulso da sua terra, continua a não ter o seu Estado independente – um direito inalienável e que, além disso, lhe é reconhecido pelas instâncias internacionais, mesmo que a contra-gosto em alguns casos bem conhecidos.
Ao longo destes 60 anos sucederam-se guerras e massacres como a que aconteceu agora em Gaza e nenhuma contribuiu para que haja passos determinantes na resolução do problema. É sabido que, devido à desproporção de forças entre um Estado fortemente armado e apoiado internacionalmente e um povo apontado mundialmente a dedo como um criminoso contumaz quando recorre a foguetes pouco mais do que artesanais, a resultante é a convicção óbvia de que Israel pretende aniquilar pela força a resistência através da qual os palestinianos defendem e afirmam os seus direitos.
Ao invés, sempre que se desenvolve um processo de negociações teoricamente orientadas pela procura de um desfecho pacífico para o problema gera-se nas sociedades palestiniana e israelita um sentimento de maior proximidade e de possibilidade de convívio. São, porém, situações de pouca dura uma vez que os sectores internos e externos que se alimentam da guerra tudo fazem para bloquear a diplomacia, protelando-a até cair no descrédito e no fracasso como aconteceu com o chamado “processo de paz” assumido corajosamente em 1993 por Isaac Rabin e Yasser Arafat.
Se a guerra trava o passo à diplomacia e ela própria se revela inconsequente perante o problema israelo-palestiniano não é difícil deduzir que as forças dominantes em Israel continuam a pretender a ocupação total da Palestina, por muito que algumas matizem os discursos. Na opção bélica pouco ou nada distingue o trabalhista Ehud Barak da “centrista” Tzupi Livni (com a carreira política sempre ligada à direita nacionalista e aos serviços secretos da Mossad), do nacionalista Benjamin Netanyahu e outros comparsas.
Há uma situação, poucas vezes focada mas determinante, que impõe a aplicação cada vez mais apressada da estratégia da limpeza étnica: a demografia. De acordo com os ritmos de desenvolvimento populacional existentes e que não indiciam alterações, a curto/médio prazo a população árabe da Palestina vai superar a israelita, pondo em causa as estruturas do Estado teocrático e segregacionista de Israel. A chacina de Gaza e o número macabro de crianças e mulheres que atingiu é um exemplo brutal, mas os territórios de Jerusalém Leste e da Cisjordânia não estão incólumes. O vergonhoso e humilhante muro de separação que continua a ser construído já permite a Israel a ocupação estável de 40 por cento do território que na Cisjordânia deveria pertencer ao futuro Estado da Palestina. Prossegue, entretanto, a usurpação de casas e de terras palestinianas para o crescimento dos colonatos (outra forma de ocupação); a multiplicação de controlos militares e de outras restrições ao movimento quotidiano dos palestinianos inferniza as suas vidas e, no limite, encoraja a fuga para lugares onde o sofrimento e a humilhação não sejam as marcas terríveis do dia-a-dia. Os esbirros israelitas que em 1948 cometeram a chacina da aldeia de Deir Yassin gritavam aos sobreviventes: “vão para o Hussein” (Jordânia); depois, foram imitados por Ariel Sharon e replicados pelos seguidores deste ao afirmarem que “não é preciso criar um Estado palestiniano porque este já existe, é a Jordânia”. Como se percebe, a limpeza étnica tem pelo menos um destino estabelecido.
Por isso, se o Mundo não travar Israel, o precário silêncio das armas em Gaza não significa o fim da guerra. Mais dia, menos dia, a matança prosseguirá.