Jornal "A Voz do Operário"
As eleições sul-africanas e os desafios futuros
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A “1.ª volta” das eleições sul-africanas de 22 de Abril aconteceu em finais de Dezembro de 2007, na Conferência Nacional do ANC em Polokwane.
Esta Conferência representou a derrota do Presidente Thabo Mbeki e das suas cedências ao grande capital sul-africano e internacional. A eleição de um novo Presidente, Jacob Zuma, e de um novo Comité Executivo Nacional, constituiu uma viragem de rumo e um reforço dos parceiros da Aliança Tripartida constituída pelo Congresso Nacional Africano (ANC), Partido Comunista Sul-africano (SACP) e a Confederação dos Sindicatos Sul-africanos (COSATU). Foi aprovada uma nova política industrial e de desenvolvimento, uma reforma agrária e um programa agrícola mais célere, e medidas para combater o desemprego, que rondava os 26%.
Os resultados da Conferência de Polokwane fizeram ressuscitar as alegações de corrupção contra Zuma, em investigação há 7 anos, e uma nova acusação, a qual acabou por ser rejeitada. Como se veio a saber, o próprio Mbeki esteve por detrás destas alegações. Os derrotados de Polokwane empreenderam uma outra acção para enfraquecer o ANC criando uma nova força política divisionista, o Congresso do Povo (COPE), que albergava um pequeno grupo de magnatas negros, alguns com ligações ao próprio ANC. Mas os resultados eleitorais acabaram por mostrar o fracasso também desta. O COPE obteve apenas 7,4% contra uns esmagadores 65,9% do ANC, embora abaixo dos 69,7% de 2004. Esta vitória constituiu uma derrota da ofensiva das elites sul-africanas contra o ANC e os seus aliados
Numa análise simplista do percurso democrático da África do Sul, poder-se-á dizer que a presidência de Nelson Mandela enfrentou a dura tarefa de sarar as feridas do apartheid com a chamada reconciliação, tentou evitar a fuga e sabotagem do grande capital e estabilizar a economia. A presidência seguinte de Mbeki não conseguiu, ou não quis, assegurar uma melhor distribuição das enormes riquezas do país, frustrando as expectativas criadas na maioria negra pela queda do regime racista branco. As estruturas económicas continuaram controladas pelos brancos, com pequenas alterações cosméticas e o aparecimento de alguns magnatas negros, enquanto a população negra continuou a ser explorada. O desemprego acentuou-se, agravado pelo fluxo de imigrantes vindos dos países limítrofes com problemas económicos, como o Zimbabué e Moçambique.
Alteração de rumo
A confiança reiterada pelos sul-africanos no ANC nas eleições de Abril passado impõe a continuação e consolidação das mudanças aprovadas em Polokwane e uma alteração de rumo.
Em primeiro lugar, é urgente baixar os níveis da pobreza e do desemprego, seja nos aglomerados urbanos ou no meio rural e entre as mulheres e os jovens. Como se afirma no manifesto eleitoral do ANC, fortalecendo as áreas tradicionais da indústria e o sector mineiro, apoiando as pequenas empresas industriais, desenvolvendo as zonas rurais e transformando as estruturas agrícolas, nomeadamente através de uma Reforma Agrária. Vencer a pobreza e a fome requer a criação de mais oportunidades de emprego decente e sustentável.
O novo governo terá de enfrentar outros desafios e problemas como melhorar a qualidade de ensino, acabar com a elitização das escolas e certos resquícios de racismo nalguns estabelecimentos do ensino superior. A nível de saúde, para além da promessa de cuidados de saúde para todos, o governo do ANC tem um problema grave para resolver – a Sida. O governo anterior negou-se a reconhecer a sua dimensão e, consequentemente, pouco fez para a sua prevenção. Continuam por resolver questões como a habitação, o saneamento e a água potável. Isto é particularmente grave nas zonas periféricas das cidades, nos antigos townships ou guetos do apartheid, como o conhecido Soweto nos arredores de Joanesburgo.
O sistema judicial e os meios de comunicação social não podem continuar ao serviço dos interesses de classe e a proteger os ricos. O crime e a corrupção não têm sido suficientemente combatidos. A comunicação social portuguesa tem frequentemente relatado assaltos, roubos e assassinatos de portugueses residentes na África do Sul. Embora haja por vezes algum exagero no seu relato, a insegurança e os assaltos são um facto e reside no desemprego a sua principal causa.
No próximo ano a África do Sul estará sob os olhares de todo o mundo por causa do Campeonato Mundial de Futebol. Será uma bela oportunidade para conhecer melhor este grande e belo país, o maravilhoso povo que o habita e a sua variedade cultural e étnica.
O presidente Zuma, o governo e o povo sul-africano têm um longo e difícil caminho pela frente. Os interesses de classe a nível interno irão criar dificuldades e lançar atoardas. Embora a África do Sul não tenha sofrido o impacto da crise económica internacional com a mesma intensidade que o chamado 1.º Mundo, os seus efeitos irão certamente atrasar algumas reformas. Mas o povo sul-africano saberá vencer as suas dificuldades, como já no passado venceu o terrível e vergonhoso apartheid.
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