Jornal "A Voz do Operário"
Golpe militar com a mão do imperialismo
| Jornal - Internacional |
No dia 28 de Junho, um golpe de Estado depôs o presidente eleito das Honduras, Manuel Zelaya. As oligarquias hondurenhas e as forças armadas responderam assim ao anúnico feito por Zelaya de realizar uma consulta popular com o objectivo de auscultar o povo sobre uma eventual reforma constitucional. Sentindo-se ameaçados nos seus privilégios, os poderosos ensaiaram o golpe, obrigando o presidente democraticamente eleito a exilar-se. O golpe foi condenado por todos os países da América Latina e são muitos os observadores que nele vêem a mão do imperialismo norte-americano.
A história como que se repete. Em 2002, um golpe de Estado afastou temporariamente o presidente venezuelano Hugo Chávez e, no ano passado, um tentativa de assalto ao poder na Bolívia foi abortada. Em ambos os casos, tal como nas Honduras, trata-se de presidentes legitimamente eleitos pelo voto popular que tentam aprofundar a democracia nos seus países, o que também passa por retirar privilégios aos oligarcas, afastados do poder por vontade dos povos.
Nas Honduras, militares encapuzados sequatraram violentamente o presidente Zelaya depois do Congresso ter ordenado a sua destituição e do Supremo Tribunal ter validado o golpe ilegal. Foi mesmo o Supremo Tribunal quem emitiu a ordem de sequestro e expulsão do país de Manuel Zelaya, obrigando-o a exilar-se na Nicarágua.
O argentino Atílio A. Boron, director do Programa Latino-Americano de Educação à Distância em Ciências Sociais, recorda que “a brutalidade de toda a operação tem a marca indelével da CIA e da School of Americas [escola militar que formou os altos quadros das forças armadas hondurenhas]: desde o sequestro do presidente, enviado de pijama para a Costa Rica às pancadas dadas em três embaixadores de países amigos, Nicarágua, Cuba e Venezuela, que se haviam aproximado da residência da ministra das Relações Exteriores das Honduras, Patrícia Rodas, para exprimir-lhe a solidariedade dos seus países, passando pela ostentatória exibição de força feita pelos militares nas principais cidades do país com a intenção clara de aterrorizar a população”.
Zelaya impedido de entrar no país
Entretando, no dia 4 de Julho, a Organização dos Estados Americanos (OEA) reuniu em cimeira extraordinária, em Washington, e decidiu suspender as Honduras da sua estrutura por desrespeito da ordem democrática. Após o conclave dos países do continente americano duas delegações partiram com destino a Tegucigalpa, capital hondurenha, sendo uma delas, transportada em avião venezuelano, constituída por Manuel Zelaya e Miguel D'Escoto, presidente da Assembleia das Nações Unidas, e a outra por José Miguel Insulza, presidente da OEA, e os presidentes Cristina Kirchner (Argentina), Rafael Correa (Equador) e Fernando Lugo (Paraguai).
Embora milhares de hondurenhos tenham acorrido ao aeroporto de Tegucigalpa para receber o presidente Zelaya, os militares fiéis ao golpe conseguiram impedir de aterrar os aviões em que seguiam as delegações, enquanto que, com violência, a multidão era dispersada, sendo de registar dois mortos, vítimas de tiros de atiradores furtivos das forças armadas.
Aliás, desde o golpe de Estado que as populações permanecem nas ruas exigindo o regresso do presidente deposto, pese embora a repressão e a violência militar que sobre elas se abate.
Também a censura regressou às Honduras e, recentemente, jornalistas da cadeia televisiva Telesur foram detidos e expulsos do país por persistirem numa cobertura informativa que evidencia o que se passa, nomeadamente, as enormes manifestações populares e arbitrariedades do governo de golpe presidido por Roberto Micheletti.
O papel dos EUA
Para a maioria dos analistas, o golpe de Estado não teria acontecido se não fosse o apoio dos Estados Unidos da América (EUA). Cometido ao arrepio de todo o direito internacional, o golpe foi, num primeiro instante, censurado por Barack Obama que se apressou a dizer que Manuel Zelaya era o “único presidente das Honduras” que reconhecia, “deixando isso bem claro”.
Porém, quando a comunidade internacional exigiu que cessassem todos os apoios ao governo golpista, o presidente norte-americano recusou-o com o argumento da “ajuda humanitária”. Mais ainda, as forças armadas continuam a ser equipadas pela indústria de guerra dos EUA e a secretária de Estado Hillary Clinton de imediato se disponibilizou para negociar com os autores do golpe, o que é demonstrativo da atitude norte-americana relativamente à situação nas Honduras.
A posição dos EUA traz à memória as intentonas militares das décadas de 70 e 80 na América Latina que tinham apenas um objectivo: manter o seu domínio imperialista que tem levado à delapidação dos recursos naturais e à exploração das classes trabalhadores em favor da acumulação de capital por parte dos empresários norte-americanos.
| < Anterior | Seguinte > |
|---|







