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Início - Jornal "A Voz do Operário" - Internacional - Obama e a escalada dos EUA

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Jornal - Internacional

Golpe de Estado nas Honduras. Reforço da guerra no Afeganistão. Intensificação do terrorismo de Estado no Paquistão. Escalada agressiva contra o Irão. Venda de armas sofisticadas a Taiwan. Ocupação militar do Haiti. Pergunta-se: estarão Bush e os neocons de volta à presidência dos EUA? Poderia parecer que sim, mas na realidade estas são apenas algumas das marcas impressivas da política externa dos EUA na era Obama. Dobrado o primeiro ano de Barack Obama na Casa Branca, não restam dúvidas que a política que Bush já não estava em condições de prosseguir está, na sua essência, a ser retomada e ampliada pela actual Administração, que, aliás, tem demonstrado na matéria uma sanha “invejável”.
Os factos falam por si.
Em Setembro, discursando numa sessão especial do Conselho de Segurança da ONU, Obama defendera, solenemente, o objectivo de um mundo livre de armas nucleares. Mas os EUA não deram nenhum passo consistente nesse sentido. Pelo contrário. A vertente militarista foi reforçada e o orçamento militar estadunidense no ano em curso elevou-se a um novo patamar absoluto. Sozinhos, os EUA são responsáveis por mais de 40 por cento das despesas mundiais em armamento. O anunciado acordo de desarmamento nuclear com a Rússia para 2009 ficou para já adiado, face às novas ameaças do reformulado plano antimíssil dos EUA. É hoje claro que os EUA não desistiram do obstinado objectivo de anular a capacidade nuclear dissuasora da Rússia e da China, como o demonstram, nas últimas semanas, o anúncio de colocação de mísseis Patriot na Polónia, o acordo com a Roménia no âmbito da defesa antimíssil, e a nova venda de armas a Taiwan. Acentuam-se as medidas de pressão sobre a China, país que este ano deverá passar o Japão para se tornar a segunda maior economia mundial em termos absolutos. Sintomaticamente, a edição online do principal diário chinês aponta para o crescente «cerco estratégico dos EUA à China no sudeste asiático» (People’s Daily, 22.02.10), considerando-o uma «réplica» do anel em torno da Rússia. Uma situação bem reveladora do carácter e magnitude das ameaças do nosso tempo.
Convém não esquecer que à frente da pasta da Defesa dos EUA permanece Robert Gates, cuja transição suave da Administração Bush é ilustrativa dos desígnios básicos do sistema vigente de partido único bicéfalo, num quadro em que os EUA e o mundo capitalista enfrentam a mais grave crise económica desde os tempos da Grande Depressão. Seria, portanto, enganador invocar aqui o velho provérbio “se não podes com eles, junta-te a eles” para caracterizar a acção de Obama. Como representante da classe dirigente dos EUA, Obama encarna a urgência da agenda estratégica do imperialismo norte-americano, contexto em que se inseriu a sua própria ascensão. E a manutenção de uma hegemonia mundial que corre contra o tempo não se compadece hoje em Washington com soluções de índole reformador.
Por isso, o Nobel da Paz de 2009 anunciou o envio de mais de 30 mil soldados para o Afeganistão e o reforço da guerra ali conduzida em parceria com a NATO; operação que se pretende que sirva de baptismo ao futuro conceito estratégico a adoptar na cimeira de Lisboa de Novembro para consagrar a NATO como força de intervenção global. Por isso, prossegue a ocupação do Iraque e a tentativa de engendrar uma “retirada” conservando bases militares e a tutela do país. Por isso, alastra o terrorismo de Estado no Paquistão e a desestabilização de uma vasta região que passa pelo Iémen e o corno de África. Por isso, alimenta-se a conspiração no Irão e fazem-se rufar os tambores de uma nova guerra. E Israel continua a gozar de total impunidade como potência nuclear “clandestina” e força opressora do povo palestiniano.
No velho “quintal das traseiras” do continente americano, a actual Administração conseguiu o feito de redimir alguns dos fracassos da época Bush. O golpe de estado nas Honduras que os EUA pretendem legitimar com a farsa eleitoral de Novembro último, as novas bases militares estratégicas na Colômbia, a ocupação militar do Haiti a pretexto do socorro humanitário, a manutenção da política de bloqueio e confrontação contra Cuba e o redobrar dos esforços desestabilizadores contra a Venezuela e os países da ALBA são sinais de uma vasta contra-ofensiva para retomar a iniciativa na América Latina e desarticular a vaga progressista ali em curso.
Num extenso rol de iniquidades contra a soberania e direitos dos povos nos quatro cantos do mundo, também, a prisão de Guantanamo permanece… A escalada belicista dos EUA transporta grandes ameaças, mas é um sinal de fraqueza. Não admira, pois, o silêncio da social-democracia que ainda há pouco cantava loas a Obama, alimentando ilusões de uma “salvação” quase por passe de mágica para os constrangimentos do sistema. Enquanto isto, não cessa de avolumar-se a sombra projectada pela teia das estruturas do “poder fáctico” e as forças mais obscuras da política norte-americana continuam a sair da toca…