Jornal "A Voz do Operário"
Ficção e realidades de Lisboa
| Jornal - Área Metropolitana de Lisboa |
Recentemente gostei muito de ler um “romance” sobre Lisboa vista do espaço, ou seja, a informação escrita do senhor presidente da Câmara à Assembleia Municipal. Talvez escrita por várias mãos e cabeças, significa uma peça literária para as leituras de Verão… Mais: atinge níveis de ficção científica e de algum terror suspenso sobre a cidade que levam a nossa imaginação mais lá para longe, para o que aconteceria se não houvesse eleições autárquicas este ano.
Não se trata, na maior parte, de informação sobre o que aconteceu no período a que deveria reportar. Embora haja aspectos interessantes sobre as comemorações municipais do 25 de Abril que foram tão sofisticadas e cuidadas que não se deu por elas. Gostei da parte do Aljube passar a museu e também da notícia acerca do memorial da resistência contra o fascismo na Rua António Maria Cardoso, pelo qual lutamos desde há anos, salvaguardando o facto de o vereador Ruben de Carvalho e os outros eleitos do PCP não terem nada a ver com esse movimento dito da memória que é referido e que pretende apagar outras memórias da resistência e do combate dos comunistas ao fascismo.
Depois, na informação escrita, fala-se de reabilitação urbana com alguma propriedade criativa e com alguns propósitos que defendemos. Recuperação dos edifícios sem destruir interiores valiosos, recusar o trabalho de fachada e preservar o direito a que os moradores voltem a habitar as suas casas, depois de recuperadas… A ver vamos se irá ser assim, quando essa imensa reabilitação for levada a cabo noutros mandatos. Registamos ainda os projectos de reabilitação do espaço público, que nada têm a ver com o período em análise e oxalá se não fiquem pelo dia 1 de Abril, data premonitória em que deveria principiar esta informação escrita do presidente da CML.
Sobre o empréstimo dos 250 milhões de euros que a Câmara pretende para endividar ainda mais o munícipio, lá vem mais uma parte acusatória da Assembleia Municipal, mas isso já tem a ver com outras questões e eleições, ou seja, lutas pré-eleitorais desnecessárias no que respeita à autonomia dos órgãos municipais.
Precisamos de ver melhor esclarecida a candidatura do Bairro Padre Cruz e saudamos a futura reformulação do Largo do Carmo e envolvente, embora tenhamos receio de uma visão de régua e esquadro que ressalta do documento.
Quanto ao Terreiro do Paço, gostaríamos de ver maior lucidez de análise da Câmara no que eventualmente irá fazer-se. Já o defendemos na Assembleia Municipal. A Praça do Comércio e a zona envolvente devem ser preservadas de intervenções abusivas e de ocupações sem “charme”ou com “charme”. Trata-se de um lugar com história; é a grande praça da cidade, do reencontro, da memória e do património que não pode ser mais atingido e desclassificado; antes deverá ser defendido e levado ao conhecimento de todos os que amam Lisboa e querem viver a cidade.
Os planos de pormenor e a necessidade desses instrumentos são de leitura atenta, bem como toda a informação que vem sobre a revisão do PDM. Aí estão matérias, não de informação circunstancial, mas sim de proposta para que realizemos iniciativas, a Câmara e a Assembleia, no futuro mais breve, para que possamos realmente apreender o que está em causa. Bem assim o devemos fazer em relação ao modelo de ordenamento do território e à perda de alguma centralidade de Lisboa, por culpa de quem andou a fazer a Expo sem cuidar da matéria essencial da revalorização do trabalho e da necessária criação de unidades avançadas e com tecnologias adequadas. Isso beneficiou Oeiras e outras paragens e Lisboa perdeu na zona oriental essa marca distintiva do trabalho e da criação de riqueza, como a perdeu em Alcântara e noutras zonas da cidade, nesse afã de ódio ao trabalho e a tudo o que cheirasse a classe operária organizada e interventiva.
Ameaças para Lisboa
Depois, gostaríamos de chamar a atenção para aquela parte triste da futurologia sobre a Almirante Reis e o encerramento dos hospitais da zona. Suas excelências dão isso como adquirido, na Câmara de António Costa e Manuel Salgado, numa informação que vai de 1 de Abril até 31 de Maio passado. Mas a miragem das altas tecnologias e grandes desenvolvimentos do “empreendedorismo” que apregoam para aquela zona trazem no bojo, isso sim, a destruição de ligações históricas e populares entre os hospitais que pretendem encerrar e as empresas locais e todas as redes de serviços que lhes estão ligadas e a possibilidade de gente idosa e outra, com dificuldades diversas, ter ainda algum acesso à saúde no centro da cidade.
O mesmo empobrecimento falsamente visionário vem assinalado no que toca à Praça de Espanha, ao desaparecimento do IPO e de outras estruturas fundamentais, como parte do Hospital Curry Cabral. Esvaziar e destruir significa desenvolvimento? Em ficção tudo é possível, mesmo que seja no risco imaginário de arquitectos. Mas o que é dito acerca da desactivação do Aeroporto de Lisboa vai muito mais longe do que é admissível e só nos resta acordar da leitura e respirar de alívio quando chegamos à segunda parte, agora da responsabilidade dos serviços, que é assinada pelos directores da Câmara Municipal.
Aí sim, entramos no concreto das coisas e respiramos de alívio. Os factos, as obras, os registos e a realidade do trabalho diário da Câmara, dos seus diversos serviços, entra por nós adentro e serve como refrigério, depois de tanta imaginação que só não é delirante porque é eleitoral. Ela se esfumará no vento das propostas e dos programas, das promessas e de tudo o que acompanhará este Verão de luta política que naturalmente irá acontecer e de que haveremos de retirar uma nova realidade para Lisboa. Oxalá seja mais concreta e objectiva que esta, de uma informação que se transforma em literatura e nos leva por aí dentro, até sentirmos a necessidade de poisarmos os pés na terra. Quando isso acontece, fica a saudação que os serviços merecem, pelo trabalho expresso nos relatórios que apresentam, e fica o alívio por podermos lutar livremente por outros projectos para Lisboa, sem fugas despropositadas e falsamente modernas para as traseiras da vida municipal.
É isso que nós faremos, porque Lisboa merece que seja bem cuidada e defendida dos novos bárbaros que só pensam em altos negócios com os seus territórios e património.
Aí estaremos, na luta pela reabilitação urbana a sério, nomeadamente nos bairros populares e nas zonas de habitação municipal. Defenderemos o direito à habitação dos que ainda resistem e vivem em Lisboa e dos mais jovens, que querem viver e trabalhar na nossa cidade. Propomos a qualidade de vida concreta, na educação, na limpeza e higiene urbana, na mobilidade e transportes, no ambiente, na reabilitação dos espaços públicos, na acção social, na cultura e no desporto.
Na realidade da vida quotidiana, aí estaremos ao lado da população e dos trabalhadores, com honestidade e confiança para levar em frente as nossas propostas de um programa de mudança decisiva da cidade.
| < Anterior | Seguinte > |
|---|







