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postheadericon Há mais de 30 anos com as marionetas

Jornal - Cultura

É já conhecido como o “Gepeto português”. Das suas mãos saem bonecos de diversas formas e feitios e é também com as suas mãos que lhes dá vida quando os manobra nos espectáculos que fez e faz por todo o País. Delfim Miranda constrói marionetas para si e para outros. O que começou como uma solicitação de alunos difíceis acabou por se tornar uma paíxão.
Baptizou de Damião a primeira marioneta que fez. Na altura, corria o ano de 1976, dava aulas na Escola Preparatória Damião de Góis e teve a seu cargo uma turma de “miúdos complicados”. “Quando cheguei à Damião de Góis a coordenadora do departamento disse-me que os alunos se recusavam a fazer tapeçaria. Perguntei-lhes o que queriam fazer e responderam marionetas de fios”. Nunca na vida havia feito tal coisa, mas não se atrapalhou e decidiu que juntos, professor e alunos, haviam de aprender.
Viver de marionetas não dá e Delfim Miranda dedicou-se à docência, mas “a paixão aconteceu” e não mais foi abandonada. Primeiro com espectáculos simples e a partir de textos de outros, mais tarde, com peças mais elaboradas e já escritas por si. “A escrita surgiu naturalmente. Comecei por utilizar textos de outros até que percebi que tinha capacidade para escrever os meus próprios textos”. Tornou-se então mais fácil. Concebida a história, criavam-se os bonecos que haveriam de a ilustrar.
Na Escola Preparatória Manuel da Maia, onde lecciona actualmente, as marionetas perfilam-se ao longo de um largo corredor que desemboca num espaço com bancos corridos em frente de um pequeno palco. Ali, o “Gepeto português” recebe crianças de várias escolas de Lisboa para lhes mostrar como funcionam as marionetas e para as fazer sorrir com o seu espectáculo de bonecos todos eles concebidos com materiais simples. “Alguns mais não são que cartão, papel e cola”. Como as máscaras que marcam presença à entrada da exposição junto aos cabeçudos – uma famlia de galináceos – que deixam a descoberto a cara de quem os coloca porque “assim não assustam as crianças”.
Professor de Artes Visuais há quase quatro décadas, Delfim Miranda também tem a sua vida ligada ao teatro por via dos bonecos que constrói a pedido. “Neste momento estou a fazer um trabalho para o “Inspector Geral” que A Barraca vai estrear”. Por isso, expostas surgem figuras de Shakespeare, outras que serviram ao primeiro espectáculo para crianças encenado por Maria do Céu Guerra e um Zé Povinho, um rei e um bispo que participaram na recriação histórica da implantação da República que em Loures decorreu a 4 de Outubro, um dia antes de no resto do País.
Das mãos do artífice/artista saem reis, duendes, cavaleiros medievais, animais, soldados e figuras estranhas que ilustram as histórias que conta. Todos são vestidos ou pintados por Delfim Miranda que para os construir usa tudo o que a inspiração lhe sugerir: um doseador de detergente, uma bola saída numa máquina de brindes, o interior de um ovo de chocolate, caricas, pedacinhos de corda, bolas de ping-pong, pequeninas contas que fazem as vezes de olhos. Cuidadoso nos pormenores, coloca brincos nas bonecas e anéis brilhantes nos dedos das figuras da nobreza.
Percorrer a exposição intitulada “”Grande Mostra Autobiográfica de Marionetas de Delphim Miranda” com o artística é descobrir pedacinhos da sua vida para além dos portões da escola. “A Vaquinha Mal Cheirosa e o Porco Rogeiro foram personagens de um programa de televisão chamado «A Ilha das Cores». A rata telecomandada que fazia de Fada Madrinha num espectáculo de teatro e teve mais sucesso que os actores. A maqueta do espectáculo «Principezinho» baseado na obra de Saint-Exupéry”. E a famosa Caixa dos Bonecos que há muitos anos acompanha o artista. “É o meu mais antigo espectáculo e nele conto como evoluíram as marionetas. Claro que elas não tiveram evolução, mas é uma forma de mostrar vários tipos de bonecos”, desde aqueles que apenas dão saltinhos a pés juntos passando pelo soldado que já levanta um braço para fazer continência, até ao famoso Damião que quando “fala” abre a boca.
Mas há mais. Inclusive a Nau Catrineta que balouça quando há tempestade e leva a bordo o capitão, o diabo e o gajeiro. São ilustrações de mais de 30 anos com as marionetas. São retalhos de uma vida ligada aos bonecos e aos espectáculos de histórias de contar que Delfim Miranda constrói todos os dias, mesmo quando ensina outros professores e educadores a tirarem partido das marionetas que define como sendo “um instrumento pedagógico fundamental”.