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Início - Jornal "A Voz do Operário" - Cultura - Odete Santos publica livro

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Jornal - Cultura

Este é um livro sobre mulheres. Não admira, portanto, que tenha por título uma das "bruxas" mais famosas que houve até hoje. Porque as mulheres dotadas de conhecimentos excepcionais eram normalmente tratadas como bruxas. E no caso presente estaremos perante uma "bruxa" com mestrado e doutoramento. De facto, aquela que foi Hipátia de Alexandria, nascida em meados do século IV, foi uma mulher notável que se distinguiu nas áreas da matemática e da astronomia. Este é também um livro pela liberdade de pensamento. Um livro pelo conhecimento e contra todas as ideias obscurantistas. Que continua a haver muitas relativamente às mulheres.

Política, advocacia, teatro, poesia e agora a escrita. Odete Santos encontrou uma nova “paixão” e o resultado é “um pequeno ensaio” a que deu o título “A Bruxa Hipátia (O cérebro tem sexo?)” e que pretende desmontar a ideia de que as mulheres estão mais predispostas, biologicamente, para as humanidades e os homens para as ciências exactas. Daí que, Odete Santos parta da figura de Hipátia de Alexandria, “astrónoma, matemática, filósofa neoplatónica que também percebia de música” e que os cristãos assassinaram por apedrejamento depois de a acusarem de bruxaria, simplesmente, por ser uma mulher sábia.
“Ela era uma grande mulher”, diz Odete Santos de Hipátia de Alexandria que também ensinava e que tentou salvar a biblioteca de Alexandria quando o bispo católico permitiu que fosse incendiada pela turba de fanáticos cristãos.
Mas há mais “bruxas” neste pequeno ensaio que Odete agora publica. “O livro não é apenas sobre Hipátia. Relata os útlimos oito dias anteriores à sua morte para ilustrar que as mulheres também podem ser sábias”. Este é o principal objectivo: “uma pequena investigação sobre se os cérebros de homens e mulheres são diferentes e se de facto existe uma predisposição biológica das mulheres para as humanidades e dos homens para as ciências exactas”.
Sem pretender revelar o resultado da investigação, Odete Santos fala de inúmeras experiências conhecidas, entre elas as de António Damásio que concluiu que não se pode identificar uma área específica do cérebro quando pensa porque todo ele se movimenta no acto de pensar. “A sexualização do cérebro sofre a influência hormonal, porém, só na fisiologia da reprodução se manifesta. Não há qualquer prova de que homens e mulheres tenham cérebros diferentes”, refere a autora que, ao longo do seu ensaio, vai dando a conhecer as mais recentes investigações.
“O que existe de facto são estereótipos que se foram criando ao longo do tempo de que as mulheres não têm jeito para isto ou para aquilo”. E também o facto de também durante muitos anos terem estado impedidas de aceder à educação em pé de igualdade com os homens, o que explica que “desde Hipátia e durante mais de 12 séculos não tivesse havido nenhuma mulher que se dedicasse à matemática. Isso e, naturalmente, o receio de serem consideradas heréticas” e sofrerem o mesmo destino de Hepátia.
O livro de Odete Sanots é o resultado do interesse pessoal por estas questões. “Sempre me interessei pelas questões do cérebro enquanto órgão biológico, mas também cultural. Depois li um pequeno livro de Catherine Vidal, directora de Pesquisa no Instituto Pasteur de Paris intitulado “Cérebro, sexo e poder” que me entusiasmou, tal como um artigo da mesma autora - “Quando a ideologia invade a biologia”-, em que ela sustenta que é apenas por questões ideológicas que as mulheres são consideradas melhores nas humanidades”. “Destas leituras e do meu interesse por estas matérias resultou este pequeno livro”, confessa Odete Santos.

Novos projectos na calha

Aos 69 anos, Odete Santos mantém a energia que todos lhe reconhecem e a abraçar novos projectos. Na escrita, tem mais dois livros em preparação, um romance e outro ensaio desta feita sobre questões bioéticas.
“O romance vai ficar para depois, mas desde já posso dizer que é a história de duas gémeas homozigóticas, em que uma é educada pela mãe e outra pelo pai”, e servirá também para demonstrar “a luta entre o inato e o adquirdo, sendo certo que o cérebro 'faz-se' pela experiência”. “Terá, no entanto, um final trágico com um suicídio em local de trabalho”, o que, reconhece Odete, traduz a influência que os recentes casos de suicídio na France Telecom tiveram sobre si.
“O outro projecto é um livro que abordará questões bioéticas como o aborto, a eutanásia, a clonagem e a utilização de células estaminais embrionárias. Este livro terá um personagem, inspirado num personagem de uns livros de ciência para crianças que o meu pai me comprava quando era pequena, o senhor Thompson”, desvenda a escritora.
O personagem escolhido chama-se Golem Gil. “Golem são figuras de barro que  uma crença judaica diz que ganharão vida. Os golem judaicos não pensam, nem falam, mas o meu personagem pensará e falará e ao contrário dos golem judaicos terá um manto não branco mas vermelho que é a cor do teatro”, Também por causa do teatro – outra das paixões de Odete Santos – o apelido do seu personagem é Gil, numa homenagem a Gil Vicente.
“Golem Gil conduzirá o autor pelas matérias da bioética e haverá também bocadinhos de peças de teatro que as ilustram”, como o 'Auto dos Físicos', o 'Auto da Alma', e a 'Comédia de Rubena' de Gil Vicente”, desvenda a escritora.