Jornal "A Voz do Operário"
Números e realidade do desemprego
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O Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) divulgou os números do desemprego registado referentes a Dezembro de 2010. E o Governo, através do Secretário de Estado do Emprego, aproveitou logo esses dados para vir dizer que eles mostravam que “o pior do desemprego já passou”. Por isso, é oportuno fazer um balanço da evolução do desemprego registado durante todo o ano de 2010, e não apenas em Dezembro, para se poder ficar com uma informação correcta da situação.
Como se sabe, o desemprego registado não inclui a totalidade dos desempregados existentes no País. Apenas são considerados nos números do desemprego registado aqueles desempregados que tomaram a iniciativa de se inscreverem nos Centros de Emprego. Estão excluídos não só os que não se inscreveram mas também aqueles que são eliminados mensalmente dos ficheiros dos Centros de Emprego que, como se vai mostrar, são muitos milhares. Apesar de todas estas limitações é importante analisar com objectividade os dados sobre o desemprego registado pois eles permitem tirar conclusões também importantes.
No dia 1 de Janeiro de 2010 estavam inscritos nos Centros de Emprego 524.674 desempregados e no dia 31 de Dezembro de 2010 o número de desempregados inscritos era de 541.840, ou seja, mais 17.166. Apesar disso, o Secretário de Estado do Emprego afirmou que “o pior do desemprego já passou”.
Durante todo o ano de 2010, inscreveram-se nos Centros de Emprego 669.449 desempregados. Os Centros de Emprego, durante todo ano, arranjaram trabalho para apenas 69.102 (só no mês de Dezembro inscreveram-se 47.477 novos desempregados e os Centros de Emprego só arranjaram trabalho para 3.274 desempregados), e o Secretário de Estado do Emprego veio dizer que “o pior do desemprego já passou”.
Durante todo o ano de 2010, foram eliminados dos ficheiros dos Centros de Emprego 583.181 desempregados (uma média de 48.598 por mês), e nem o Secretário de Estado do Emprego nem o presidente do Instituto de Emprego e Formação Profissional deram qualquer explicação pública das razões que levaram à eliminação administrativa de um número tão elevado de desempregados. E apesar de não saber qual é a situação actual destes desempregados, o Secretário de Estado veio dizer que “o pior do desemprego já passou” .
Entre 1 de Janeiro e 31 de Dezembro de 2010, o número de desempregados inscritos nos Centros de Emprego aumentou 17.166, pois passou de 524.674 para 541.840. No entanto, entre Janeiro e Novembro de 2010 (ultimo mês em que a Segurança Social divulgou dados), o número de desempregados a receber subsídio de desemprego diminuiu em 49.720, pois passou de 359.369 para 309.649, o que determinou que a taxa de cobertura do subsídio de desemprego (percentagem de desempregados inscritos nos Centros de Emprego a receber subsídio de desemprego) tenha diminuído de 64,1% para apenas 56,6% (em Dezembro é previsível que o número de desempregados a receber subsídio ainda seja menor). Apesar desta redução de desempregados a receberem subsídio de desemprego, o Secretário de Estado ignorou a situação das centenas de milhares de desempregados que não recebem qualquer apoio e veio dizer que “o pior do desemprego já passou”.
Mas como é que se pode dizer que “o pior do desemprego já passou” quando o número de desempregados aumentou entre Janeiro e Dezembro de 2010 em 17.166? Quando a percentagem de desempregados que os Centros de Emprego conseguem arranjar trabalho em cada mês corresponde apenas a cerca de 10 por cento do número dos novos desempregados que se inscrevem todos os meses nos Centros de Emprego (em Dezembro de 2010 a percentagem foi apenas de 6,9 por cento pois inscreveram-se 47.477 e os Centros de Emprego, neste mês, só arranjaram trabalho para 3.274 desempregados)? Como é que se pode dizer que “o pior do desemprego já passou” quando se eliminaram, durante o ano de 2010, 593.181 desempregados e não se dá qualquer explicação pública? Como é que se pode dizer que “o pior do desemprego já passou” quando a percentagem de desempregados a receber o subsídio de desemprego, em relação apenas aos desempregados existentes nos ficheiros dos Centros de Emprego no fim de cada mês, diminuiu, entre Janeiro e Dezembro de 2010, de 64,1 para 56,6 por cento, estando já quase metade dos desempregados inscritos nos Centros de Emprego sem direito a qualquer apoio para poderem sobreviver numa situação dramática para a maioria deles e suas famílias? São perguntas que ficam aqui para que cada leitor responda de acordo com a sua consciência e também avalie se é correcto afirmar que “o pior do desemprego já passou”, como o fez o Secretário de Estado do Emprego.
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