As crianças, como os adultos, vivem a vida de diferentes maneiras e a diferentes velocidades, o que depende sobretudo da sua personalidade, da sua maneira de pensar e de fazer as coisas e dos seus contextos de vida.
Alguns meninos são rápidos demais. Habitualmente, tratam-se de crianças impulsivas e agitadas, com dificuldade em manter e focalizar a atenção, mas também enérgicas, dinâmicas e cheios de vivacidade. Excepto os casos graves, e que configuram efectivamente uma perturbação, costumam ser meninos com quem os adultos facilmente simpatizam e a quem facilmente compreendem. Afinal, a maioria dos adultos compartilha esta pressa de viver. Em geral, esta é uma sociedade que cultiva o conceito «fast», seja aplicado à comida, à roupa ou ao que quer que seja. Vivemos espartilhados por rotinas rígidas, esmagados pelas obrigações e divididos entre os deveres (aos quais não podemos deixar de atender) e os prazeres (aos quais não queremos deixar de atender). Fazer tudo rápido é, pois, uma necessidade e uma maneira de estar. Para alguns, torna-se de tal modo uma rotina que, mesmo em férias, não dispensam os horários e a pressa porque aparentemente diminuir o ritmo significará o enorme risco de perder algo.
No entanto, existem crianças que parecem nascer e crescer totalmente imunes à pressa. Têm o seu tempo para fazer as coisas e não há muito que se possa fazer para lhes aumentar o ritmo. São normalmente meninos sensíveis, criativos, com um mundo interior muito rico e que frequentemente se perdem nas suas próprias ideias e pensamentos ou gostam simplesmente de ficar a contemplar algo, independentemente do que haja para fazer a seguir ou da pressa que se tem. Na verdade, são pessoas que querem e gostam de estar onde estão em vez de estarem permanentemente ansiosos, desejosos ou preocupados com o que virá a seguir.
Refira-se que alguns casos de extrema lentidão podem significar situações psicológicas de alguma gravidade, como depressões. Mas esses são os casos das crianças que sempre tiveram um ritmo «normal» e de repente se tornam invulgarmente lentas, sendo que esta lentidão surge sempre acompanhada de outros sintomas e indicios. Os meninos de que fala este texto são outros: são aqueles que toda a sua vida foram assim e, normalmente, toda a sua vida foram alvo de tentativas de mudança por parte dos outros à sua volta.
No entanto, a lentidão pode ter várias leituras. Dentro dos parâmetros da funcionalidade, não existe propriamente um problema em se gostar de levar a vida com calma e apreciar o presente. Curiosamente, estas crianças são normalmente muito atentas aos pormenores e aos detalhes e muito reflexivas. Conhecem-se a si próprias e ao mundo e sabem estar consigo próprias.
E esses são, a muitos níveis, ganhos de valor ilimitado.