Jornal "A Voz do Operário"
Adelaide
| Jornal - Escrita de Esferográfica |
Também na aldeia nasceu mais um dia. Adelaide abriu os olhos mecanicamente depois de umas horas de sono e foi obrigada a olhar à volta do seu quarto. Ou melhor, do pequeno canto da casa aonde tinha a cama. Embrulhou o corpo no frio da manhã de Inverno. Tentou cortá-lo com o calor do café que foi bebendo em pequenos golos. Golos que provocavam um ruído seco, quase metálico, que ecoava na casa vazia. Como vazio era o espaço que se estendia para além das paredes. Espreitou pela janela, mesmo em frente, o edifício que fora um dia uma escola. Agora, as janelas estavam cerradas. E as paredes, que haviam sido claras e alegres, apareciam manchadas. Maceradas pelo tempo. As vozes e os risos das crianças há muito que se perderam. Recordava as suas e as dos outros. Vira-as crescer. E, já homens, a vida arrastara-os para longe, deixando para trás os que foram ficando cada vez mais velhos. E mais sós. Com a saudade a roer dentro do peito.
Da mulher que fora, perdurava ainda o azul muito claro que lhe coloria os olhos, quase escondidos por detrás das rugas fundas que os rodeavam. E a força que sempre fora sua. Que, ainda agora, teimava em esquecer as dores, obrigando o corpo a dobrar-se a todos os gestos que se impunham ao longo dos dias. Mesmo os mais duros. Como arrancar do ventre da terra os seus magros frutos.
Naquele dia, porém, os dedos das mãos negavam-se a obedecer-lhe. Foi-os aquecendo na caneca enquanto bebia o café. Mas nem o calor os conseguia moldar. Vagueou de um lado para o outro. Gemeu baixinho. Poisou os olhos no retrato do filho tirado há muito tempo. E só desejou que ele estivesse ali. Abriu um pequeno envelope e contou o dinheiro que ainda restava daquilo a que chamavam reforma. Contou mais do que uma vez, pensando nos medicamentos que já lhe iam faltando. E nas contas para pagar que não tardariam a aparecer. Cruzou os braços, apertando-os com força sobre o peito. Voltou a deitar-se, quase agradecendo aos pingos de chuva que batiam na janela, o ruído que provocavam. A sua única companhia nesse dia. E imaginou, até, ouvi-los segredar o seu nome: Adelaide…
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