Para que uma população viva em segurança num dado território, trabalhando e sustentando-se dele, proporcionando à sua progenitura uma existência condigna, recebendo e integrando os que a esse território acorrem, por breves ou longos períodos, é absolutamente necessário conhecê-lo nas suas diversas características, acompanhar os fenómenos naturais existentes, estudar os efeitos das alterações produzidas e entender o relacionamento deste território com os que lhe são contíguos. A estas acções continuadas e corrigidas no tempo chamamos ordenamento do território.
Desconhecer as realidades leva-nos comummente a ultrapassar os limites da ocupação quantitativa ou qualitativa do espaço, e por diversas vezes ao longo da história só a dolorosa experiência nos ensinou a lidar com as situações e engendrar formas de evitar ou minimizar as catástrofes que sabemos recorrentes. Também a história nos demonstra que não poucas vezes as soluções encontradas não são isentas de sacrifícios das coisas que prezamos.
A recente tragédia da Madeira não cabe contudo neste rol, assim como não cabe a tragédia de Rabo-de-Peixe, nos Açores, a destruição das Ilhas da Ria de Faro, entre outras. E são estas apenas porque associamos mais facilmente os excessos de pluviosidade às tragédias, e por serem mais recorrentes do que outros fenómenos como ventos ou sismos.
Desprezar ou ignorar os sinais evidentes de desastres futuros, nas questões de ordenamento e gestão, neste caso do território, permitindo-se ocupações e usos desadequados e até abusivos, para os quais havia anos de chamadas de atenção, ao ponto da quase destruição do próprio território, é um acto que não pertence já ao domínio da inconsciência, mas do domínio no mínimo da negligência criminosa.
Quem tem responsabilidades de direcção tem que ter a capacidade de fazer cumprir limites e baias, mesmo que em descontentamento de alguns, ou mesmo que as decisões se mostrem, para os próprios, dolorosas.
A Voz é, por todos os motivos, o nosso território e é esse que a Direcção tem de gerir e ordenar. A hesitação ou procrastinação de uma decisão dolorosa no seu ordenamento, poderia significar num futuro não muito distante, comprometer a existência de toda a instituição, o que seria um crime, e portanto a suspensão do 3º Ciclo de ensino tem de ser lido a essa luz.
Contudo gerir e ordenar o território não significa pôr fim a equipamentos necessários à população, ainda que possa significar por vezes repensá-los, redimensioná-los às novas realidades e propor a sua alternativa e retoma futura em moldes sólidos. Donde é desde já este um dos principais desafios da Direcção.