É impensável falar de projectos para a juventude, de direitos de autodeterminação dos povos, da situação social, de escola participada, e de uma miríade de outros assuntos, sem a cada passo ter a certeza que cada um desses actos é um filho de Abril.
A censura, essa censura que durante o fascismo impedia a mais ténue centelha de interesse ou intervenção do cidadão comum na coisa pública; que procurava alhear, num segundo crivo após o crivo da repressão, o nosso povo de uma acção cívica e política, escamoteando as suas lutas e iludindo a própria realidade, foi então a arma de quem intentava incutir à população o sentimento de inutilidade da acção, de que nada muda, de que a palavra e o gesto de qualquer homem não faz qualquer diferença num imenso silêncio.
A censura e o medo cresceram e ganharam raízes durante os quarenta e oito anos em que uns quantos “ultrajaram e venderam esta terra…hoje nossa”. Porém a libertação de Abril, se foi suficiente para lhes por cobro legalmente, não foi absolutamente conseguida para que não existam hoje, com o beneplácito, se não mesmo cumplicidade expressa, dos vários governos constitucionais, pressões e censuras baseadas no medo. No medo da perda do emprego e capacidade de subsistência, no medo da perseguição no local de trabalho disfarçada de avaliação de desempenho e competência, no medo de se encontrar um dia perante uma velhice, sem meios e sem apoios.
Assim, todas as acções, todos os projectos, que ousem enfrentar a situação, que por verbo ou acto demonstrem que somos livres, que dignifiquem o ser humano nas suas dimensões culturais e educativas, que utilizem a arte, o desporto, ou a solidariedade para desenvolver a consciência do nosso povo e a confiança nas suas capacidades, são, por todas as razões actos de resistência ao medo e à censura. São, por todas as razões, filhos de Abril.
A Voz do Operário, sendo uma instituição centenária é contudo também, pela sua natureza e objectivos e por ser uma organização sempre jovem, uma filha de Abril. Daí tem as suas mãos sempre abertas às outras mãos para construir em conjunto um futuro mais humano e digno para todos.