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Sexta, 12 Março 2010
 
 
Breves
Estado fica com 85% do preço de um maço de cigarros PDF Imprimir EMail
Escrito por Ana Goulart   
Quarta, 05 Março 2008
ImageQuando há cerca de 200 anos se começou a produzir tabaco para fumar em Portugal, as condições laborais eram muito piores que actualmente. A evolução tecnológica acabou por trazer benefícios também para os trabalhadores da indústria tabaqueira que, naturalmente, virão as suas condições de trabalho melhoradas, bem como, os salários. Fernando Rodrigues trabalha na Tabaqueira há 25 anos e garante que não serão as leis anti-tabágicas a pô-la em risco. Já o preço do tabaco...

Como era há cem anos trabalhar na indústria do tabaco?

A indústria apareceu em Portugal há mais de 200 anos. Daquilo que sei, na altura era uma indústria muito primitiva por assim dizer. Foi trazida para o nosso País em meados de 1800 e, nessa altura e mesmo no início do século XX, era aquilo que se pode chamar uma indústria manufactureira. O processo de produção quase não tinha máquinas.
Mais tarde, por volta de 1910, surge o empresário Alfredo da Silva que foi quem montou a Tabaqueira portuguesa, instalou a fábrica em Cabo Ruivo, em Lisboa, que, mais tarde, se transferiu para o bairro da Tabaqueira em Albarraque, Sintra. A Tabaqueira, entretanto, foi comprada pela Philip Morris. Na altura em que Alfredo da Silva montou a primeira fábrica, os lucros da produção foram muito grandes e a indústria foi considerada uma das indústrias mais lucrativas a nível europeu. Há cem anos atrás o tínhamos era uma manufactura completamente primitiva feita por muitos trabalhadores, ao contrário do que acontece hoje.

E como eram as condições laborais?

Os salários, por exemplo, eram extremamente baixos. Os trabalhadores trabalhavam praticamente de Sol a Sol e as condições eram muito más. No que toca a acidentes de trabalho as taxas eram muito elevadas, sobretudo, entre os que trabalhavam nos armazéns e no transporte das barricas de tabaco. Havia acidentes muito graves e muitos deles com vítimas mortais.

Curiosamente é uma indústria que, mesmo ainda em oitocentos, emprega muita mão-de-obra feminina.

Sim, é uma indústria que sempre se caracterizou por empregar muitas mulheres. Na altura em que a Tabaqueira arrancou já cerca de 50 a 60 por cento dos trabalhadores da indústria de tabaco eram mulheres.

A Tabaqueira tinha o monopólio da produção?

A partir dos primórdios do século XX e durante muito tempo sim, mas por volta dos anos 60 do século passado surgiu uma concorrente, a INTAB que, após o 25 de Abril, foi absorvida pela Tabaqueira, tendo esta sido nacionalizada pelo Estado português.

A indústria do tabaco empregava muita gente. Hoje já não é assim...

Havia muito menos tecnologia. Algumas máquinas para moer o tabaco, outras que, embora ainda com recurso a muito trabalho manual, já enrolavam o tabaco. Depois eram os trabalhadores que com pincéis colavam o papel do cigarro. E não havia ainda a indústria do filtro, este aparece muito mais tarde. Sendo um trabalho muito manual exigia de facto grandes quantidades de mão-de-obra.

Agora já não?

Não. Basta que diga que estou na Tabaqueira há 25 anos e quando entrei uma máquina fazia mil cigarros por minuto. Hoje, temos máquinas que fazem 20 mil cigarros por minuto. A evolução tecnológica fez-se sentir bem no modo de produção, mas trouxe como consequência que o trabalho se tornou muito mais stressante. As máquinas substituíram as pessoas, mas o grau de exigência, quer em termos de formação quer no que diz respeito ao acompanhamento do trabalho das máquinas, é muito maior. Hoje, cerca de 70 por cento da produção da Tabaqueira é robotizada, tanto a nível da fábrica, como dos armazéns.

Isso reflectiu-se, inevitavelmente, no emprego.

Sem dúvida. Nós chegámos a ter cerca de dois mil trabalhadores, aquando da nacionalização e, neste momento, entre sede e fábrica temos 715, 720 trabalhadores.

Apenas devido à evolução tecnológica?

Devido à evolução tecnológica porque enquanto antigamente três máquinas precisavam de 16 trabalhadores, hoje em dia, precisam apenas de nove, e à reestruturação por que a empresa passou. Nestes últimos anos, a empresa passou por uma reestruturação que tem passado pela transferência de parte da produção e serviços para outsourcing e intermediárias.

Mas as condições trabalho e os salários melhoraram em relação ao que se verificava há cem anos.

Naturalmente que sim. Em 1996, a Philip Morris adquire parte da Tabaqueira e, em 2001, passa a detê-la na totalidade. Neste momento, o Estado português não detém nada da Tabaqueira, nem mesmo as marcas que também pertencem à Philip Morris e muitas delas, portuguesas, estão agora a ser feitas na Holanda. Isto para dizer que as condições melhoraram muito, sobretudo com a nacionalização da Tabaqueira, e depois da privatização devido à força do sindicato. Em dois anos, conseguimos em média um aumento salarial, por cada trabalhador, de 250 euros. Neste momento, as coisas são um pouco diferentes. O que se passa no sector público também atinge o sector privado e já não conseguimos grandes aumentos. Mas a nível de condições, sem dúvida nenhuma, que estamos bem. Temos creche gratuita para os filhos dos trabalhadores, temos ATL gratuito para os filhos dos trabalhadores, temos um seguro de saúde que abrange o conjugue e os filhos, temos transportes, temos refeitório, temos um prémio de assiduidade de três em três meses. Temos um conjunto de condições que vinham da época em que a Tabaqueira era uma empresa nacionalizada e que graças à luta dos trabalhadores conseguimos manter. Pode dizer-se que a Tabaqueira é, neste momento, uma das empresas que a nível de salários e de condições de trabalho melhor está.

A Tabaqueira é um monopólio.

A Philip Morris adquiriu a Tabaqueira e as fábricas de tabaco dos Açores e da Madeira. Por isso, hoje, há apenas uma empresa de tabaco em Portugal que é a Tabaqueira.

O tabaco chegou a ser associado a um vício reservado às classes altas e sinal de requinte, porém, nos dias que correm é visto como um malefício inclusive para a saúde pública. As leis anti-tabágicas têm tido influência no negócio da Tabaqueira?

A indústria tem-se ressentido e de que maneira. Aliás, a própria reestruturação também deriva disso. Podemos dizer que as leis anti-tabágicas têm – não tanto quanto era esperado – tido como resultado algumas quebras na produção. Mas não podemos falar apenas das leis anti-tabágicas, temos de falar igualmente do preço do tabaco. O Estado, neste momento, impõe um preço ao tabaco – este ano vai aumentar mais 30 cêntimos cada maço de cigarros e o Estado quer que cada maço esteja nos cinco euros em 2010, 2011 – que pesa no bolso dos fumadores. Há três anos, o SINTAB teve um encontro com os grupos parlamentares em que mostrou a sua preocupação relativamente aos preços que, já naquela altura, se estavam a praticar. O tabaco está extremamente caro e as pessoas também deixam de fumar, atendendo a esse facto. Um casal, em que ambos fumem por dia um maço de cigarros, consome 300 euros em tabaco por mês!

Parte substancial do preço de um maço de cigarros vai para impostos.

Muito substancial mesmo. Em cada maço de cigarros o Estado vai buscar cerca de 85 por cento do valor. Logo aí se vê a moralidade que existe no Estado português quando proíbe o fumo do tabaco, mas depois não abdica de ir buscar os seus lucros à Tabaqueira.

O tabaco é um bom negócio...

Os quinze por cento com que a Tabaqueira fica, pagam a fabricação e o lucro... e estes não são pequenos.

Hoje consome-se mais ou menos tabaco?

O consumo de tabaco tem vindo a aumentar. Tem, no entanto, fases do ano em que há menos consumo. Por exemplo, no Verão desce um pouco. Mas entre a decréscimo e o aumento a variável é muito pouco significativa.

Quantos cigarros produz anualmente a Tabaqueira?

Vinte e um biliões de cigarros.

Só para o mercado interno?

Não, hoje em dia, 75 a 80 por cento da produção destina-se ao mercado estrangeiro, nomeadamente, Itália.

Que comentário lhe merece a nova lei anti-tabágica que restringe ainda mais o fumo do tabaco, inclusive, em locais como restaurantes, cafés e discotecas?

A perseguição que se está a fazer ao tabaco, e esta é uma opinião muito pessoal, é completamente injusta. Há sítios onde penso, sem dúvida nenhuma, que deve ser proibido fumar como hospitais, centros de saúde, recintos desportivos. Agora há outros que é um exagero. Penso que a lei devia ser mais equilibrada. A lei protege demais os não fumadores, esquecendo os que o são e que contribuem, e de que maneira, para o Orçamento de Estado. Penso que é uma perseguição absurda.

Acredita que estas novas proibições se vão reflectir na indústria tabaqueira?

Penso que inicialmente até podem ter algum efeito, mas quem fuma não vai deixar de o fazer porque naquele ou noutro café passou a ser proibido fazê-lo. O efeito de maior gravidade vai ser o aumento do preço do tabaco.

 
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