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Início - Opinião - Tiques nervosos

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Jornal - Opinião

“Um tique é um movimento motor ou uma vocalização súbita, rápida, recorrente, sem ritmo e estereotipada. Para a pessoa que o pratica, o mesmo é sentido como algo irreprimivel; no entanto, pode ser suprimido por períodos variados de tempo. Todas as formas de tiques podem ser exacerbados pelo stress e atenuados por actividades absorventes e que impliquem concentração (por ex. ler ou construir puzzles), estando em geral acentuadamente diminuídos durante o sono.”
Definição baseada no DSM IV

De acordo com estudos atribuídos à Academia Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, 10% das crianças em idade escolar apresentam, numa determinada fase das suas vidas, transtornos relacionados com tiques nervosos.
Estes tiques podem ser de dois tipos [vocais ou motores], podendo ainda classificar-se em simples ou complexos e em clónicos ou distónicos. De todos estes, os mais frequentes são os tiques motores simples, sendo que os tiques complexos motores e vocais são muito raros, constituíndo  uma perturbação que se designa por síndrome de Gilles de la Tourette.
De uma forma geral (e excluindo as situações que derivam do síndrome de Gilles de la Tourette), os tiques tendem a desaparecer cerca de 12 meses após o seu aparecimento. A sua causa é geralmente psicológica, sendo que muitas vezes aparecem em consequência de situações de stress, ansiedade ou mudança difícil na vida da criança ou do adolescente. Em seu redor, devem tanto quanto possível ser evitadas referências ao tique, assim como críticas, repreensões ou qualquer forma de troça. Efectivamente, e uma vez que a pessoa sente que não controla o tique e que não tem modo voluntário de o evitar, a percepção que possa fazer de um impacto negativo do mesmo sobre os outros só contribuí para aumentar a sua ansiedade, o que obviamente é o contrário do que se pretende. Sendo assim, a forma mais adequada de lidar com os tiques parece ser ignorá-los. Ao mesmo tempo, e uma vez que se trata de algo que frequentemente é sentido como muito incómodo pela criança ou pelo adolescente, os adultos poderão ter intervenções tranquilizadoras, explicando que os tiques são algo que acontece a muitas pessoas e que acabarão por desaparecer com o tempo.
De facto, de acordo com muitos investigadores, os tiques são automatismos nervosos que ajudam a aliviar a tensão, desaparecendo de forma espontânea ao fim de algum tempo, sem que haja necessidade de tratamento. No entanto, dever-se-á ter também em linha de consideração que, muitas vezes, e quando os tiques surgem de modo súbito, estes podem ser um indício de que a criança ou o adolescente está a sentir muitas dificuldades em gerir ou mais variados aspetos/situações da sua vida, encontrando-se num estado de ansiedade já significativo. Como tal, é importante que os adultos próximos procurem identificar, em conjunto com a criança ou o adolescentes, as causas da sua ansiedade (sem necessariamente as relacionar com os tiques) e proporcionar um espaço de diálogo, conforto e segurança que possa ter um efeito tranquilizador sobre o mesmo. Dependendo dos casos e das situações, pode mesmo ser necessário o recurso a apoio psicológico, embora pela situação de ansiedade e não exatamente devido aos tiques.
Ao mesmo tempo, e embora a grande maioria dos tiques desapareça espontaneamente com o tempo, existem casos (embora raros) em que os mesmos se tornam crónicos. Assim, quando uma criança ou um adolescente apresenta tiques motores e pelo menos um tique vocal por um período que exceda significativamente um ano, então poderemos estar perante um caso de síndrome de Gilles de la Tourette. Este transtorno surge normalmente associado a problemas de aprendizagem, relacionamento, atenção, concentração e comportamentos obsessivos e compulsivos, requerendo uma intervenção imediata e que normalmente incluí terapia medicamentosa e psicoterapia, para além de ser muito importante uma intervenção social, no sentido de explicar o problema às pessoas em redor da pessoa e minimizar tanto quanto possível a incompreensão, a troça e a rejeição a que estas crianaças e adolescentes muitas vezes estão sujeitos.