Voz
Crescer com as birras
Quarta, 13 Janeiro 2010 15:42
Crescer não é fácil nem rápido.
Os desafios começam assim que se nasce; à disposição está todo um mundo enorme para se descobrir mas os recursos para o explorar vão-se desenvolvendo à medida que os meses passam e o bebé adquire competências. Viver é uma experiência totalmente nova e fazem falta regras, limites e referências para que a criança se possa organizar na relação com o mundo e com os outros e compreender-se a si mesma e ao que está à sua volta.
As crianças nascem sem referências do certo e do errado, do possível e do impossível, do real e do imaginário, etc. É na relação com os outros, e com o mundo, que constroem estas noções e desenvolvem a sua própria compreensão das coisas, a qual deriva essencialmente das experiências que vão vivendo e da forma como estas são resolvidas. Cabe, pois então, ao mundo em redor da criança (família, escola, sociedade, etc) dar-lhe os modelos correctos e orientá-la nessa tarefa difícil que é crescer e em todos os desafios a tal associados.
Ao mesmo tempo, e não tendo ainda estes modelos e estas noções, as crianças orientam-se pelo “princípio do prazer”, isto é, dirigem-se e persistem naquilo que lhes é gratificante e proporciona boas sensações e rejeitam tudo o que tem efeito oposto. Numa idade precoce (essencialmente entre os 2 e os 3 / 4 anos), tudo aquilo que contrarie este funcionamento provoca uma reacção na criança e a birra pode acontecer.
E porque acontece? Chora-se e faz-se birras essencialmente por duas razões: primeiro, porque é o grande poder que a criança tem face ao mundo; segundo, porque resulta. E resulta de diferentes maneiras consoante as pessoas envolvidas, mas a ideia de que as crianças que fazem mais birras são aquelas cujos pais mais sofrem com as mesmas é consensual entre os profissionais da Educação. Trata-se de uma relação de poder: a criança chora e grita e percebe que isso, de alguma maneira, afecta o outro e, ao afectar o outro, leva-o a ceder mais facilmente nas próximas vezes. Ou não. Mas basta a criança perceber que a sua acção provoca algo para tender a repeti-la em situações idênticas.
No entanto, a função das birras tem maior amplitude. No início, a criança chora simplesmente porque está zangada e frustrada e essa é a sua maneira de exprimir esses sentimentos. Trata-se de algo natural e saudável, fazendo parte do processo de crescer e de aprender as regras do mundo. Na realidade, são muitas vezes os adultos que dão um outro sentido à birra ao relacioná-la com teimosia ou com o facto da criança não aceitar um «não» - o que se aplica nas crianças mais velhas mas não para as mais pequenas. Aos 2/3 anos, e da mesma forma que se chora quando se cai e se tem uma dor física, chora-se quando se é contrariado porque tal provoca uma dor que não é física mas também se sente.
O que se deve fazer então? Em primeiro lugar, respeitar a dor e a frustração da criança e o seu direito a manifestá-la. Entender que não se trata de algo dirigido ao pai ou à mãe mas sim uma exteriorização da sua raiva face a uma situação frustrante. Acalmar a criança, repetindo suavemente as razões pelas quais não pode fazer determinada coisa, podendo-se mesmo dizer que se compreende que ele(a) esteja zangado e que isso é natural. Procurar traduzir a birra através de palavras, ou seja verbalizar o que se supõe que a criança está a sentir de modo a dar-lhe um modelo alternativo de expressar a sua zanga. Sugerir alternativas e procurar dirigir a criança para outra coisa. Obviamente, ceder à birra e ao objecto de desejo da criança não vai ajudar em nada a que esta compreenda que, independentemente de querer muito algo, há situações e há momentos em que existem razões que se sobrepõem à sua vontade e que tem que aprender a aceitar isso.
Até aqui não existe nada de novo. A maioria das pessoas tem estes conhecimentos, gerindo-os face às situações e às crianças com o bom senso de que é capaz. No entanto, existem duas ideias muito importantes a realçar: quando faz birra, a criança está normalmente furiosa e frustrada e tende a descontrolar-se. Raramente é algo dirigido especificamente ao adulto que está com ela mas sim à situação em si que desencandeou o conflito. Com efeito, a criança está angustiada e zangada e, tal qual como quando chora porque se magoou ou está doente, precisa de ser «contida», isto é, tranquilizada e acalmada, para se re-organizar do ponto de vista emocional e controlar-se. A segunda ideia é a de que as birras são normais e fazem parte de um crescimento saudável. Uma criança que nunca faz birras sugere uma de duas coisas: ou as suas vontades e desejos são sempre satisfeitos, ou não dá a si própria o direito de se manifestar contra o que a frustra, o que pode também ser preocupante.
Chorar e fazer birras quando as coisas não correm à medida dos seus desejos faz, pois então, parte de ser bebé. Conter, regular e estruturar a criança faz parte de ser mãe, pai, avó, etc. É na combinação destes dois vectores que encontramos o «motor» da organização da vida emocional e afectiva da criança e a «chave» de um desenvovimento ajustado e saudável.
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