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Início - Voz - Como se devem resolver os problemas com as crianças?

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postheadericon Como se devem resolver os problemas com as crianças?

Jornal - Voz

Do crescimento e desenvolvimento infantil, faz obrigatoriamente parte o conflito. Cresce-se também através do confronto e da experimentação, sendo tal parte integrante do processo pelo qual se adquirem e interiorizam as normas e regras da sociedade a que se pertence, Como tal, e também devido às características próprias da infância e aos impulsos a esta associados, as asneiras e os disparates são normais e fazem parte de um desenvolvimento psico afectivo saudável. Sendo assim, educar bem implica necessariamente resolver bem e com sabedoria os problemas e os conflitos que decorrem da relação adulto-criança e, designadamente, saber gerir o “portar mal” infantil.
Na perspectiva das crianças, o diálogo pacífico deve ser a via de resolução de todos os problemas mas a grande maioria dos adultos com responsabilidades educativas considera que o mesmo não é suficiente em todos os casos, recorrendo muitas vezes aos castigos como forma de corrigir os comportamentos indesejáveis. Curiosamente, as crianças são capazes de entender, desde muito cedo, a dimensão afectiva que existe na correcção do comportamento, em particular quando a mesma lhes é explicada e é percebida como justa e adequada.
“Os pais e os professores põe-nos de castigo porque gostam de nós e para nós não voltarmos a fazer asneiras.”
Joice, 9 anos

Ao mesmo tempo, o “portar mal” surge na fantasia das crianças como algo muito vasto, em que todos incorrem uma ou outra vez, mas que tem um carácter infinito, na medida em que pode ser muitas coisas, algumas menos óbvias e de que dependem da avaliação de cada um.
“Eu conheço meninas que respondem mal aos adultos e aos pais também e isso é muito grave. Para mim, responder mal aos adultos é falta de educação.”
Joice, 9 anos
“Portar mal é bater nos colegas, tratar mal as pessoas, dizer asneiras e não respeitar os adultos.”
David Palitos, 8 anos
“Portar mal também pode ser ir a sítios sem pedir.”
José, 6 anos
"Portar mal é as pessoas fazerem uma asneira, por exemplo dar murros, fazer mal às pessoas e não sei mais.”
Filomena, 6 anos

A diferença de perspectivas entre crianças e adultos faz com que surjam por vezes situações sentidas como injustas pelos mais pequenos. De facto, muitas dos disparates infantis são feitos sem consciência de que se está a fazer algo errado, correspondendo a um impulso do momento ou a algo que de alguma maneira é agradável à criança e que, portanto, ela faz. Como tal, existe uma discrepância mais ou menos eterna entre os pontos de vista das crianças e dos adultos no que se refere aos disparates feitos pelos primeiros, o qual faz também parte do crescimento e da aprendizagem social.

“Eu acho que os adultos às vezes são muito exigentes. Uma vez eu disse uma mentira e nunca mais ninguém acreditou em mim enquanto que há uma menina que disse duas mentiras e as auxiliares acreditam nela.”
David Palitos, 8 anos
“Eu também acho que os adultos às vezes são injustos. Às vezes não nos deixam fazer coisas só porque nós fizemos coisas sem importância, que podiam desculpar.”
Joice, 9 anos

Em suma, a gestão saudável do conflito entre adultos e crianças é parte fundamental do processo educativo e desempenha papel central na formação de adultos equilibrados, justos e conscientes dos seus deveres, direitos e responsabilidades. Para além disso, tal vai modelar a forma como as crianças, enquanto adultos, irão orientar as suas relações interpessoais, designadamente aquilo que pretendem também ser enquanto pais e educadores.
“Se os meus filhos fizerem asneiras muito grandes, vou pô-los de castigo.”
David Palitos, 8 anos
“Se o meu filho disser uma asneira, dou-lhe uma palmada na boca e mando-o para o quarto.”
Joice, 9 anos
“Só vou pôr os meus filhos de castigo se se portarem muito mal. Fecho-os no quarto e a seguir a pedirem desculpas podem sair.”
Filomena, 6 anos

E assim se cresce.